Houve uma época em que os personagens dos games não tinham voz. Antes disso, eles sequer tinham texto: o jogo apresentava uma premissa e o jogador jogava. A história ficava em um folheto ou na contracapa da caixa de onde vinha o cartucho, e aquilo era tudo o que existia de enredo e narrativa no produto.
Os anos passaram, e personagens foram ficando mais complexos: ganharam diálogos e motivações que os tornavam mais vívidos, e mais fáceis para o jogador se conectar ou se identificar com eles, da mesma maneira como se identificam com outras obras de ficção. A dublagem surgiu nos anos seguintes e, a cada geração, os personagens parecem mais vivos.
Mas a tradição do protagonista silencioso permanece. A ideia é simples: o herói não fala, e ele frequentemente serve como uma projeção do jogador e reforça sua conexão com o mundo. É uma proposta clássica dos RPGs, mas que permeia outros títulos, com algumas escolhas memoráveis e outras nem tão funcionais.
Abaixo, apresentamos cinco grandes protagonistas silenciosos da história dos games!
Crono — Chrono Trigger

Crono é a personificação do heroísmo em Chrono Trigger, mesmo se o jogador se recusar no início do jogo. Ele entra em um portal desconhecido para salvar alguém que ele mal conhecia, viaja no tempo, não desiste até encontrar essa pessoa e, em momento algum do resto da trama, falha em ser herói.
O título até oferece liberdade e agência ao jogador na tomada de algumas decisões referentes ao protagonista, indo de algumas moralmente questionáveis, que podem mudar detalhes no desenrolar da trama, até decidir se Crono vive para ver o fim do jogo. Resulta em um protagonista que consegue ser completo e perfeitamente integrado ao enredo sem dizer uma única linha de diálogo.
Frisk — Undertale

Frisk é uma criança sem nenhum pano de fundo. É um personagem que cai no Underground e serve como um receptáculo vazio do jogador, mas seu vazio é o mecanismo mais importante de Undertale.
Cada ação que o jogador toma por meio de Frisk é uma projeção dele. A decisão entre lutar ou conversar é baseada nas motivações e interpretação do interlocutor, porque Frisk, em momento nenhum, apresenta qualquer motivação para tomar ações. Quando Undertale finalmente revela o preço das suas ações, Frisk se transforma em uma armadilha onde o jogador não consegue mais se distanciar das suas escolhas.
Joker — Persona 5

O Joker é cheio de personalidade mesmo sem nenhum diálogo que não seja escolhido pelo jogador, e ela vem dos detalhes não-verbais. A Atlus resolveu o problema do protagonista silencioso fazendo-o performar e ser cool da mesma maneira que um personagem de anime é cool por meio de atitude visual; a maneira como ele ajeita os óculos, o fato de ele carregar um gato na mochila que conversa com ele, ou a pose de encerramento após um All-Out Attack — tudo feito para que Persona 5, o jogo mais estiloso da série até hoje, tenha um personagem tão estiloso quanto os menus e visuais apresentados ao jogador.
Link — The Legend of Zelda

O protagonista silencioso mais famoso dos videogames, Link é, literalmente, o elo entre o jogador e o mundo. Após décadas de jogos, ele nunca disse mais do que um "Hyah!" enquanto balança uma espada, e o molde dele ainda funciona a cada geração e novo título de The Legend of Zelda, com jogadores projetando diferentes versões do herói baseados na estética, nos eventos e na versão de Hyrule em que ele está, do que pela personalidade do herói em si.
Nenhum Link, até hoje, falhou. Cada jogador jura, com argumentos e teorias, que o Link favorito dele é o que tem mais personalidade, e cada novo Link sempre funciona quase tão bem quanto suas versões mais famosas. Que um jogo consiga manter um protagonista passivo em (quase) todos os títulos durante trinta anos, e ele ainda seja tão aclamado, é um feito memorável por si, e nada aponta para o declínio de Link como um dos melhores e mais memoráveis heróis da indústria.
Warrior of Light — Final Fantasy XIV

Em sete expansões, um dos únicos pontos em que FFXIV nunca falhou foi em construir um elo entre o jogador, o mundo e os eventos. Ele o faz através do Warrior of Light: o herói que acena, sorri e faz cara feia para os inimigos, e mesmo assim, faz o jogador sentir tanto e se importar tanto com o mundo que faz o protagonista parecer um personagem completo, mesmo que ele seja apenas um avatar.
Este herói funciona porque o mundo lhe dá a devida importância, ao mesmo tempo em que ele não é constantemente o centro das atenções. Final Fantasy XIV tem um ótimo equilíbrio entre fazer o jogador se sentir o protagonista do anime — há de convir, o enredo de FFXIV é um enorme anime shonen — enquanto estabelece um universo repleto de complexidades que independem dele, repleto de personagens secundários cativantes que podem, ou não, se unir aos Scions no futuro.










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