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Opinião

Final Fantasy XIV: Evercold, a Mitologia Nórdica e o Elo com Final Fantasy VII

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Evercold parece construída sobre os mesmos alicerces da mitologia nórdica de Final Fantasy VII. Exploramos os paralelos entre a próxima expansão de FFXIV e o clássico de 1997, e o que a lore do MMORPG revela sobre o que pode estar por vir na Quarta Reflexão.

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revisado por Tabata Marques

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Evercold, nova expansão de Final Fantasy XIV, chega em janeiro de 2027 e marca o início do novo arco narrativo do MMORPG, a Godless Realms Saga. Ela se passa na Quarta Reflexão, que está sendo consumida por gelo. O trailer é enquadrado como uma história de ninar contada por uma avó para uma criança Au Ra e, além de apresentar alguns breves elementos do enredo, também mostra locais e estruturas com temas de serpentes e dragões nórdicos, com aeronaves e terras flutuantes. No mundo de baixo, congelado, há os "gigantes arcanos", cujo papel no enredo foi deixado ambíguo.

É evidente que Evercold é inspirada na mitologia nórdica e reforça uma especulação dos fãs nos últimos meses: a expansão 8.0 seria baseada em Final Fantasy VII.

Os primeiros sinais envolveram a inclusão da Hardy Daytona — moto que Cloud Strife pilota no último segmento do arco de Midgar — como montaria e Red XIII como minion em FFXIV, e ganhou mais credibilidade com as primeiras imagens do Patch 7.5, onde um dos bosses possui um design semelhante ao do Scorpion Sentinel, um dos chefes mais icônicos de FFVII.

Imagem: Square Enix
Imagem: Square Enix

Com o anúncio oficial, Evercold pode ter confirmado a teoria. Das referências nórdicas, das quais Final Fantasy VII tem em abundância, até a referência à icônica cena de Aerith Gainsborough na logo da expansão, há paralelos suficientes para explorarmos a lore dentro da lore de Final Fantasy VII e como ela pode estar sendo contada com outra roupagem.

Uma Breve Recapitulação

Inspirar uma expansão ou patch em um título anterior está longe de ser algo novo em Final Fantasy XIV. Os acenos, em geral, não costumam ser sutis, mas não chegam ao ponto de seguirem uma linha à risca do mesmo desenvolvimento de enredo da obra original.

O padrão utilizado pela Creative Studio III utiliza determinados elementos de um título anterior — a Magitek de FFVI em A Realm Reborn; diversos tropos narrativos de FFIII em Shadowbringers; a viagem à lua para enfrentar um grande mal de FFIV em Endwalker; Alexandria, Necron, o tema de memória como evidência viva e outros elementos de FFIX em Dawntrail — e os mescla à lore e ao universo criado em Final Fantasy XIV.

Sphene, por exemplo, é uma referência clara à Princesa Garnet Til Alexandros XVII, mas seu papel na trama de FFXIV difere consistentemente daquele que a princesa de Alexandria em Final Fantasy IX exerceu. Da mesma maneira, a Crystal Tower em Final Fantasy XIV tem um papel distinto do que teve em FFIII.

Independentemente das inspirações, o mundo estabelecido em cada expansão é original. Dawntrail reinterpreta Alexandria como um reino que existiu no passado e agora é uma sociedade cyberpunk à qual o jogador só é apresentado após viajar por todas as regiões de Tural, inspirada nas culturas latino-americanas e com pouca ou nenhuma referência a Final Fantasy IX, mas com alguns elementos de Final Fantasy XI.

A nova expansão, portanto, pode pegar elementos, tropos e nomes de Final Fantasy VII, mas dará nova roupagem a eles para se encaixarem de maneira fluida ao enredo de Final Fantasy XIV. Sem contar a possibilidade de encaixar elementos de outros títulos, com Final Fantasy X sendo um segundo candidato.

A Premissa de Onde Partimos

Imagem: Square Enix
Imagem: Square Enix

Antes de teorizarmos a fundo, precisamos estabelecer as condições em que estamos estabelecendo as próprias teorias.

Temos como fato que Evercold é uma expansão inspirada na mitologia nórdica, e que elementos desse universo podem e serão aplicados e integrados à narrativa geral de Final Fantasy XIV e aos temas implícitos ao desenvolvimento do enredo. Portanto, referências à cosmologia são o cerne da maioria das especulações abaixo. A pergunta fundamental respondida na maioria delas é: "Como este elemento do trailer se encaixa na mitologia nórdica?"

Também aceitamos — não como fato, mas como provável — a possibilidade da influência de Final Fantasy VII no enredo. 2027 é o ano em que FFVII completa 30 anos e potencial ano de lançamento do último capítulo da trilogia do Remake. Embora esses elementos possam ser um completo acaso, uma experiência integrada entre FFXIV e FFVII cria um ecossistema de lançamentos muito forte para a Square Enix no próximo ano e integra suas duas marcas mais fortes da atualidade.

Nesse caso, o problema está no "como?". As referências à cosmologia nórdica existem nos dois títulos, mas Final Fantasy VII é uma aventura com elementos estéticos que misturam cyberpunk e fantasia, enquanto Evercold tem visuais extraídos da estética nórdica com elementos de fantasia típicos da franquia, como continentes flutuantes.

Uma possibilidade, que seguimos como tangível, é a de que FFXIV pegue esse "universo" de FFVII pelo lado menos explorado no título original, ou até como uma subversão de papéis: onde Final Fantasy VII tem a Shinra como principal elo estético, o mundo da Quarta Reflexão pode ser, por meio das referências nórdicas, mais próximo do que seria a civilização dos Cetra.

No título original e nas duas primeiras partes do Remake, há pouca informação sobre como era a estrutura do mundo dos Cetra fora do conhecimento de que eram uma raça itinerante. Não sabemos como eram suas casas, rituais e hábitos culturais fora dos resquícios deixados pelo Templo dos Anciões e pela Capital Esquecida em FFVII. É um campo de imaginação muito amplo para reconstruir e criar sua própria narrativa em torno de um conceito já existente — o que Final Fantasy XIV fez consistentemente com seus antecessores até aqui.

Em resumo: tomamos como fato que esta é uma expansão inspirada em mitologia nórdica; portanto, ela é muito provavelmente baseada em Final Fantasy VII e busca reimaginar os Cetra.

O Mistério da Narradora

O maior mistério do novo trailer é quem é a narradora. Muitos especulam, por conta da cauda de gato acinzentada e aparência mais velha, que se trate de Y'shtola personificando Matoya. A teoria, embora válida, parece reutilizar um tropo já exercido no arco de Shadowbringers e é uma péssima ferramenta narrativa quando ela é a personagem mais interessante deste primeiro teaser.

Além da clara referência à "Terra Prometida", a narradora conta os eventos futuros no passado, mesmo que os jogadores ainda não os tenham presenciado.

Imagem: Reprodução / YouTube
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Se tomarmos o nome do arco "Godless Realms" literalmente, a figura misteriosa não seria uma alusão a uma deusa, mas uma referência a uma figura que Odin consulta na mitologia nórdica: a Völva, uma sacerdotisa vidente que reconta a criação do mundo e o Ragnarök ainda por vir, na mesma linha temporal.

A figura também pode ser uma referência às Nornas, as tecelãs do destino, guardiãs da memória cósmica e encarregadas de moldar a trajetória existencial de mortais e deuses. Na mitologia nórdica, há três Nornas, responsáveis respectivamente pelo passado, presente e futuro — Final Fantasy XIV pode ter optado por unir as três em uma única entidade onipresente.

Em ambos os casos, essa figura se assemelha parcialmente à de Aerith Gainsborough, a última sobrevivente dos Cetra, uma raça nômade com fortes conexões com o Planeta, capaz de acessar e ler memórias antigas e eventos futuros por meio da Lifestream, o fluxo de almas e memórias coletivas que compõem a força vital do Planeta.

Os Cetra buscam a Terra Prometida. Aerith afirma que eles viajam o mundo em busca dela, mas nunca explica o conceito com clareza; a Shinra acredita que se trata do lugar onde o Lifestream converge, portanto, uma terra abundante de Mako, mas o consenso — deixado implícito por Aerith — é de que esse lugar é o fim da jornada dos Cetra, o momento em que eles, tendo cumprido seu propósito, morrem e retornam à Lifestream.

A conexão entre os Cetra e o Planeta por meio da Lifestream os torna mais próximos dos Vanir, panteão de deuses relacionados à natureza e habitantes de Vanaheim, um dos Nove Mundos descrito na mitologia nórdica como um reino exuberante e fértil, do que das Nornas.

Aerith, por outro lado, está muito mais próxima das Nornas e de Völva do que dos Vanir. Ela é a intermediária entre a humanidade e o Lifestream e intercede por ambos durante os eventos de Final Fantasy VII. Se considerarmos o Remake, no qual ela (e Sephiroth) manipulam os eventos para alterar o destino, Aerith exerce os três papéis: o de Vanir como uma Cetra, o da Norna ao, tendo conhecimento de todos os eventos, tecer o destino e intervir na Lifestream, e o de Völva ao guiar Cloud pelos eventos do jogo e em linhas temporais distintas.

É possível que a narradora não seja a figura — ou a única figura — que representa Aerith na expansão. Afinal, uma personagem apresentada no trailer é tão relevante para a trama de Evercold a ponto de ser também a figura de capa da expansão.

Imagem: Reprodução / YouTube
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Sua aparição, de joelhos, fazendo uma prece com as mãos antes de desaparecer no gelo, é referência a um dos momentos mais icônicos da indústria dos games.

Imagem: Reprodução / YouTube
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Pode-se argumentar que a figura idosa e a "sacerdotisa" sejam a mesma pessoa, mas os traços de Au Ra dela são marcantes demais para não serem perceptíveis no capuz de uma figura humana (sem mencionar o rabo de Miqo'te), a menos que essa personagem seja uma referência a entidades que podem mudar de forma, como Loki e Odin. A possibilidade mais provável é a de que as duas figuras têm papéis distintos, mas representam a mesma personagem na obra em que a expansão está se baseando, porque Aerith exerce muitos papéis em uma só figura em FFVII.

A Temporalidade não linear

A temporalidade ainda é um mistério nessa história. Em Shadowbringers, descobrimos que o tempo na Primeira Reflexão passa muito mais rápido do que na Source, e não há impedimento para que a Quarta Reflexão também não possua sua própria estrutura.

Na cosmologia nórdica, existe o wyrd, uma teia de consequências que conecta todos os momentos e todos os seres, e cada nó afeta todos os outros independentemente da sua posição temporal. O destino, nessa teia, não é o futuro: tudo possui uma forma que está completa antes de ser vivido. O futuro já está definido e já possui textura porque as Nornas já teceram o destino. O Ragnarök, por exemplo, não é uma profecia, mas um evento que já existe na estrutura do cosmos, esperando para ser alcançado.

A interpretação de um destino absoluto e teoricamente inevitável coloca a narradora misteriosa ainda mais no papel de Völva. A Völva fala no pretérito "vi" para narrar o destino, mesmo quando os eventos ainda não ocorreram. A mesma linguagem pode ser a utilizada pela figura de capuz durante a história de ninar, e os eventos narrados podem ser tomados como absolutos por ela porque, mesmo que o Warrior of Light ainda não tenha chegado dos céus, sua vinda e todos os eventos que o sucedem já estão definidos na sua interpretação.

Esse é um conceito relativamente similar a um dos elementos da Lifestream em Final Fantasy VII. As consciências dos mortos dissolvem-se no fluxo e permanecem acessíveis com memória e conhecimento. Mesmo sendo a fonte da vida, a Lifestream carrega tudo o que já aconteceu ao planeta, e as ações que ocorrem dentro dela estão em uma realidade na qual a distinção temporal é inexistente.

A narradora pode estar "recontando" eventos dentro de um equivalente da Lifestream (como fonte de conhecimento atemporal, não exercendo o mesmo papel que o Aethereal Sea já exerce em FFXIV) da Quarta Reflexão, no qual ela narra o futuro como um ponto em que o passado e o futuro já existiram na mesma teia de eventos. O destino já escrito e um fim dos tempos inevitável podem ser um tema central da nova expansão, como os eventos dos patches mais recentes sugerem.

O futuro não é inevitável. Os eventos do Remake de FFVII tratam, na perspectiva de Aerith e Sephiroth, de manipular ações no presente/passado para alterar o futuro — conceito que dialoga com interpretações mais modernas da wyrd, na qual ela é vista como uma força em constante formação a partir do passado e do presente, tecendo o futuro a partir de um conjunto de possibilidades.

Weapon, Deuses, ou Primals?

Os "Gigantes Arcanos", seres do tamanho de montanhas, são outro mistério do trailer. As Weapons são uma categoria semelhante de criaturas colossais em Final Fantasy VII e funcionam como um sistema imunológico do Planeta, despertando quando ele sente estar diante de uma ameaça existencial, como um último recurso de autopreservação.

Imagem: Square Enix
Imagem: Square Enix

Além do tamanho, os Gigantes/Colossos se assemelham às Weapons em design. Sabemos que existem algumas delas na Quarta Reflexão, e todas possuem uma espécie de cristal em forma de broca no centro dos seus corpos, assim como as Weapons possuem uma esfera remetente às Materias. A estrutura e o design dos corpos, entretanto, são semelhantes ao de Sin (Final Fantasy X).

Explicar os sonhos dos Fayth, o ciclo de reencarnação de Sin em Spira e as possíveis implicações no universo de Final Fantasy VII levariam um artigo inteiro por si só; portanto, vamos nos ater ao conceito no qual Sin e as Weapons se conectam: Sin, inspirado em catástrofes naturais, é percebido pelo povo de Spira como uma punição pelo pecado de utilizarem Machina. Ele emerge de um vilarejo para outro, causa destruição incontrolada e leva à loucura os indivíduos que se aproximam demais dele, desaparecendo em seguida.

As Weapons assemelham-se ao papel de Sin e representam, diante dos temas de ambientalismo de FFVII, uma materialização das catástrofes naturais, mas com causalidade direta. Elas são a resposta do Planeta à transgressão humana. A invocação do Meteoro por Sephiroth as despertou, mas seus alvos incluem primariamente regiões controladas pela Shinra, onde foram construídos reatores de Mako que transformam a Lifestream em energia desperdiçável e ameaçam a sobrevivência do Planeta.

Caso se assemelhem a um desses exemplos, os Gigantes Arcanos podem ser a resposta da Quarta Reflexão a alguma ação do passado, ou aos eventos que culminaram no mundo estar encoberto por gelo. Eles podem ser a punição — e a "era glacial" ser uma consequência da sua presença — ou a tentativa do ecossistema de se livrar da catástrofe que causou a era glacial.

As criaturas, nesse caso, seriam referência parcial aos Jötnar, os primeiros seres do cosmos que representam forças hegemônicas da natureza e do caos, comumente retratados como antagonistas dos deuses Aesir (com exceções: relações íntimas entre deuses e Jötnar ocorrem na mitologia nórdica). A diferença é que, nessa interpretação, não fica evidente como ocorreu o conflito entre eles e os deuses, se estamos falando do mundo tentando se proteger de uma ameaça maior, ou se os deuses se tornaram os gigantes após um evento cataclísmico nos moldes do Ragnarök.

Uma falha da teoria acima é desconsiderar muitos elementos da construção de mundo de Final Fantasy XIV, em especial a existência de Primals e a possibilidade de os "gigantes de gelo" serem manifestações deles na Quarta Reflexão. Uma vez invocados, os Primals consomem o éter ao redor e podem agir com autonomia que se sobrepõe às emoções dos seus invocadores, exercendo influência suficiente para temperar indivíduos.

Esses Primals podem ter temperado tantas pessoas a ponto de se tornarem colossos e enviarem o mundo a uma era glacial, ou podem ter sido deformados pelo éter instável do mundo e transformados em uma criatura distinta do seu propósito original. Em ambos os casos, a figura da Au Ra fazendo preces ganha um pouco mais de substância, seja como alguém cujas preces mantêm a presença dessas criaturas no mundo, ou cujas preces mantêm o meio de controlá-las em xeque.

Caso sejam um paralelo com Sin e não com as Weapons, os gigantes arcanos como Primals também se encaixam um pouco melhor na lore geral de Final Fantasy X — da mesma maneira que o sonho dos Fayth sustenta a existência de Sin e perpetua o ciclo em Spira, esses Primals podem ter sido invocados e são sustentados pelos resquícios de fé de uma civilização extinta. Na ausência deles, os Primals podem ter ficado, continuando a drenar a força vital do planeta.

O Viajante que vem do Céu

A figura ao lado da sacerdotisa tem traços estéticos remetentes às descrições visuais do deus Odin e pode ter um papel importante na trama. Mas estou inclinado a acreditar que a representação de Odin nesta expansão é o Warrior of Light.

Imagem: Reprodução / YouTube
Imagem: Reprodução / YouTube

Odin manifestava-se pelo mundo como um viajante de barba e chapéu de abas largas, chegando a comunidades em crise e oferecendo ajuda para testar a sabedoria da humanidade. Seu papel na mitologia é altamente controverso: ele é tanto o deus da sabedoria quanto da guerra e construiu o cosmos após matar Ymir, o gigante primordial. Seu papel é o de destruidor de mundos para os Jötnar e deus supremo, criador de Midgard e Asgard, para os Aesir — ele é herói ou vilão conforme a interpretação narrativa dos seus atos.

O Warrior of Light é chamado pela narradora de "O Viajante", e a menina Au Ra complementa: "aquele que veio do céu". A interpretação de herói ou vilão pode não estar plenamente clara no universo de Final Fantasy XIV quando abordamos o protagonista, mas um viajante dos céus tem um paralelo em FFVII.

Imagem: Square Enix
Imagem: Square Enix

Jenova é conhecida pelos Cetra como "A Calamidade dos Céus". Ao cair no Planeta, ela personifica entes queridos — traço em comum com as habilidades de metamorfose de Odin, Loki e outros deuses do panteão nórdico — e os infecta, transformando-os em monstros. Jenova chegou ao Planeta para remodelá-lo e utilizá-lo como receptáculo para chegar ao próximo, e encontrou resistência dos Cetra a ponto de ser selada e isolada.

As consequências da chegada de Jenova para os Cetra e o Planeta assemelham-se às da morte de Ymir pelas mãos de Odin. A Lifestream, nessa interpretação, é o corpo de Ymir, e é por meio dela que todos os eventos de Final Fantasy VII (equivalente à criação da cadeia de eventos que resultam no Ragnarök) culminam: a extinção dos Cetra; a criação das WEAPONs; a descoberta do Mako; a origem dos SOLDIERs; as memórias dos Cetra que resultam no destino de Aerith; e a salvação da humanidade por meio de Holy.

É difícil — e improvável — imaginar o nosso herói como o causador da calamidade de um mundo quando estamos tão habituados a salvá-los, mas Final Fantasy XIV nunca teve medo de mexer em ambiguidade moral. A chegada do Warrior of Light (o viajante que veio dos céus) como um agente de grandes mudanças foi um conceito apresentado desde A Realm Reborn, e quando ele viajou para outro mundo pela primeira vez em Shadowbringers, a expansão subverteu as concepções pré-estabelecidas sobre os Ascianos, Hydaelyn e Zodiark, mas e se, dessa vez, a subversão vier na incerteza do papel do protagonista?

Cloud Strife como um narrador não confiável foi um dos tropos mais bem executados de Final Fantasy VII. Não é possível reproduzir esse papel no Warrior of Light porque, no fim das contas, ele é o nosso avatar, mas e se as nossas ações não fossem tão benéficas quanto acreditávamos? E se, ao assumirmos o papel de salvador da Source, também tivermos aceito o papel de destruidor de outros mundos? E se, para unir as Reflexões, os Scions forem confrontados com dilemas semelhantes aos que enxergamos em Emet-Selch, mas com um peso moral muito maior em relação ao valor de uma vida em outro mundo?

A escolha do Reaper como classe do herói no trailer pode sugerir esse caminho. O Warrior of Light foi o responsável pela ausência de Hydaelyn e Zodiark, as entidades responsáveis pelos eventos que culminaram no Sundering e na estrutura cosmológica do arco anterior. Em partes, as aventuras que vemos hoje em FFXIV e o estado dos mundos pós-Endwalker já remetem ao ato de Odin matar Ymir, mas, em vez de construir um novo cosmos, eles já existiam, agora sem suas deidades estruturantes, cujas consequências da inexistência deles ainda não foram apresentadas — um conjunto de Reinos Sem Deuses.

Nesse caso, a trama não dependeria mais de um vilão tentando destruir o mundo. Não é necessária uma Shinra drenando a força vital ou uma Jenova invadindo e infectando pessoas — basta a ausência de equilíbrio causada pelo herói sem que ele soubesse. O "vilão" se torna o sentimento de estar lidando com o inevitável, cuja resposta não passa por "quem devemos impedir?", mas sim por como reverter um processo já em curso.

Essa pergunta, se bem executada, é muito mais difícil de responder do que enfrentar a Endsinger nos limites do universo, mas também pressupõe que, cientes dos eventos do Sundering e após ela, os Ascianos/Anciões nunca consideraram essa possibilidade. Ou estavam cientes de que ela não serviria aos seus objetivos.

Yggdrasil e as Reflexões

Imagem: Reprodução / YouTube
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Tanto na logo quanto no trailer, existe um monumento congelado em forma de árvore para o qual a sacerdotisa reza. O comparativo mais óbvio com a mitologia nórdica — que se encaixa com o conceito da Source e das Reflexões — é a Yggdrasil, a árvore que conecta os nove reinos. A Yggdrasil é responsável pelo equilíbrio entre esses mundos, mas é dependente deles: se um mundo adoece ou se desequilibra, a árvore adoece junto. Se a Yggdrasil adoece, todos os mundos sofrem.

Existem duas interpretações comparativas. A primeira é a de que a Source é o tronco da Yggdrasil no universo de Final Fantasy XIV, e cada Reflexão é um galho. As Calamidades Umbrais, como explicado em Shadowbringers, são a consequência de quando existe um desequilíbrio tão forte em uma das Reflexões a ponto de ela voltar para a Source, culminando em uma catástrofe. A Quarta Reflexão é, segundo o trailer, um mundo à beira da ruína devido a tempestades de gelo.

A segunda é a de que a árvore representa um elo desconhecido de conexão entre as Reflexões. Algo que junta cada fragmento como elementos de um único ecossistema, em vez de mundos separados, e que a causa da instabilidade é a "Yggdrasil" — a força desse elo — adoecendo, culminando na destruição de todas as Reflexões e da Source simultaneamente.

Imagem: Reprodução / YouTube
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Quando transformada em Mako, a Lifestream — interpretada aqui como o coletivo de memórias e ensinamentos passados pelos Cetra, mas também como o condutor que conecta toda vida no mundo de Final Fantasy VII — deixa de existir. Aos poucos, a vida do Planeta é drenada e, eventualmente, o mundo colapsará.

A Quarta Reflexão pode ter sofrido um efeito colateral semelhante, como usar éter em excesso ou repetidamente para invocar Primals, ou deixá-los presentes por tanto tempo a ponto de eles secarem a vida do planeta e causarem a era glacial.

Talvez o ecossistema e a organização social daquele mundo envolvesse grupos que usavam Primals para obter conforto e comodidade — um paralelo aos reatores de Mako — e um grupo equivalente aos Cetra que nutrisse e cuidasse da fonte de éter do mundo, ou da "Yggdrasil" dessa cosmologia, para manter o equilíbrio. Quando a preservação desapareceu, os Primals podem ter crescido demais e resultado em seu estado atual.

Concluindo

Imagem: Square Enix
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A lore e a construção de universo de Final Fantasy XIV são gigantescas, e pode haver detalhes dela dos quais não me atentei, que podem desbancar uma parcela das teorias e possibilidades apresentadas acima. Os detalhes de Evercold ainda são escassos, e sabemos pouco até o momento a respeito da Quarta Reflexão, mas o trailer apresentado tem muito material para considerarmos implicações dentro do jogo e capturarmos referências de fora dele.

Faz um tempo que não fico tão interessado em FFXIV, mas, entre uma expansão que finalmente parece dar um caminho para continuarmos as aventuras do Warrior of Light com a grandeza que elas merecem, somada às mudanças bem-vindas de gameplay apresentadas durante o FanFestival, parece um bom momento para revisitar o jogo e se preparar para janeiro de 2027.

Como é habitual nessa categoria de texto, fiquem à vontade para trazer discussões, teorias, especulações e feedback a respeito do artigo.

Obrigado pela leitura!

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