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Crimson Echoes: A Continuação Não-oficial de Chrono Trigger que Nunca foi Lançada

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Um projeto de fãs do final dos anos 2000 visava estabelecer um elo entre o fim de Chrono Trigger e o início de Chrono Cross, mas foi cancelado semanas antes da data de lançamento.

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revisado por Tabata Marques

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Chrono Trigger é considerado por muitos o melhor RPG de todos os tempos. O jogo, lançado pela Squaresoft em março de 1995, juntou um "time dos sonhos" ao unir as mentes por trás de Final Fantasy, Dragon Quest e Dragon Ball para criar um título sobre heroísmo e viagem no tempo.

O título revolucionou o gênero de RPGs e permanece aclamado até hoje, mais de 30 anos após o lançamento, pelas inovações técnicas e personagens memoráveis. Mas Chrono Trigger nunca teve uma continuação direta — seu sucessor espiritual, Chrono Cross, foi lançado em agosto de 2000 no Ocidente com uma história que se conectava ao enredo do jogo anterior, mas com personagens e ambientação novos, criando um "espaço" entre os eventos do fim de um jogo e o início de outro.

Os fãs esperaram que um novo título da série Chrono pudesse juntar os pontos e dar coesão aos elos entre Trigger e Cross. Contudo, o jogo nunca saiu, e ficava evidente que a série não teria continuidade — o maior RPG da história havia encerrado seu ciclo com um sequel indireto, no qual muitos eventos importantes aconteceram fora das telas.

Quatro anos depois, esses mesmos fãs decidiram dar uma resposta às suas próprias dúvidas: um jogo feito por uma equipe deles que conectasse os pontos. Nascia, em 2004, a Kajar Laboratories — um time de membros do fórum Chrono Compendium dispostos a criar um mod de Chrono Trigger que servisse como continuação direta do jogo e prequel de Chrono Cross. Nascia o projeto Crimson Echoes.

O Chrono Trigger antes de Chrono Cross

Ilustração: Ramsus / Chrono Compendium
Ilustração: Ramsus / Chrono Compendium

Chrono Trigger: Crimson Echoes possuía um time liderado por um diretor de jogo, Agent 12, e dois co-diretores, ZeaLitY e Chrono'99. O projeto, concebido pouco após o lançamento da ferramenta Temporal Flux, seria lançado como um "ROM hack" da versão de SNES de Chrono Trigger, feito para ser rodado em emuladores. O lançamento seria em formato de arquivo de patch IPS — International Patching System — para evitar a distribuição ilegal de uma ROM completa como produto comercial.

A equipe buscou criar uma história compatível com os enredos de Chrono Trigger e Chrono Cross, de maneira a conectar os eventos em uma trama original, utilizando o conhecimento da comunidade de fãs e a enciclopédia do Chrono Compendium como material de referência.

Ilustração: Ramsus / Chrono Compendium
Ilustração: Ramsus / Chrono Compendium

O desenvolvimento durou quatro anos e meio. A equipe atualizava o Chrono Compendium com bastidores, incluindo problemas na execução de ideias do roteiro com os assets de Chrono Trigger, corrupção de arquivos e dados das ROMs, e a dificuldade de adaptar algumas ideias — Schala como personagem jogável, Frog em forma humana — ao produto final.

Crimson Echoes foi, segundo seus criadores, 98% concluído e teria 23 capítulos, somando cerca de 35 horas de gameplay e dez finais alternativos. O jogo se ambientaria cinco anos após os eventos de Chrono Trigger, com Crono e Marle como regentes do Reino de Guardia e Lucca como pesquisadora. Guardia estaria em um conflito político com Porre, que modernizou seu exército e buscava encerrar a hegemonia econômica do reino. Como documentado em Chrono Cross e em um dos finais alternativos do port de Chrono Trigger para o PlayStation One, o Reino de Guardia sofre um ataque militar de Porre em 1.005 A.D.

Ilustração: tushantin / Chrono Compendium
Ilustração: tushantin / Chrono Compendium

A ofensiva é liderada por Dalton, o comandante militar do Reino de Zeal. Dalton foi trazido ao presente pelas maquinações de King Zeal, o antagonista primário, renascido com a Frozen Flame. King Zeal utilizaria os poderes que o artefato lhe conferiu para trazer seu reino de volta, manipulando eventos e eras: a extensão da Guerra dos Místicos em 600 A.D.; a criação do Dragon God em uma linha do tempo alternativa em que os Reptites vencem a guerra contra os humanos e fundam a Dinopolis; e o surgimento de Schala na Escuridão Além do Tempo — todos eventos provocados, em Crimson Echoes, por King Zeal e que, no desenrolar da trama, culminariam nos acontecimentos que precedem Chrono Cross.

Balthasar, o Guru da Razão, também estabelecia sua pesquisa temporal em Chronopolis no ano de 2.305 A.D., com a ajuda de Robo, visando criar um bastião do tempo para garantir que uma ameaça como Lavos nunca mais apareça. No fim da história, com a derrota de Zeal, Balthasar teria a posse da Frozen Flame e, ciente de que Lavos ainda está vivo, daria início ao Projeto Kid.

A Resposta da Square Enix

Em novembro de 2008, a Square Enix havia lançado Chrono Trigger para o Nintendo DS. O port foi aclamado como uma adaptação fiel que adiciona novos elementos à trama, conectando parte das pontas soltas entre Chrono Trigger e Chrono Cross — a mesma promessa de Crimson Echoes.

O relançamento reviveu a discussão sobre direitos autorais que parecia silenciada durante quatro anos. Antes que Crimson Echoes fosse finalizado e lançado em 31 de maio de 2009, a Square Enix enviou aos desenvolvedores, em 8 de maio, uma carta de cease-and-desist por infração de marcas registradas e direitos autorais. A carta ordenava que a equipe encerrasse o desenvolvimento e cancelasse todas as atividades de ROM hacking, incluindo tradução e distribuição de outros projetos já em andamento ou lançados, e também informava que os autores poderiam ser processados em até US$ 150.000 por obra.

A equipe contestou a validade das alegações, mas cumpriu as exigências para "evitar os custos de um litígio, porque eles podem arcar com um processo frívolo muito mais do que nós". O incidente gerou reação na internet: uma parcela dos fãs se indignou com a Square Enix por encerrar o projeto, enquanto outra frente, favorável aos direitos autorais, criticava os modders por utilizarem material da Square Enix para "lançar um jogo".

O Vazamento e Flames of Eternity

Pouco após o recebimento da carta e o encerramento do projeto, uma ROM da alpha — versão inicial jogável, porém incompleta de um game — de Crimson Echoes vazou. Os criadores se posicionaram fortemente contra o vazamento, pois, se a Square Enix obtivesse provas de que eles próprios haviam vazado a ROM ou mantido qualquer código-fonte apesar de cumprirem a ordem de cessar e desistir, isso poderia ser interpretado como má-fé e resultar em problemas legais ainda maiores.

Em 2011, outra versão do mod surgiu em sites de compartilhamento de arquivos, com mais balanceamentos de mecânicas e menos bugs. Fãs especularam que aquela era a versão beta ou, como alguns afirmavam, "95% finalizada". Essa versão deu origem a Chrono Trigger: Flames of Eternity — uma recriação de Crimson Echoes que visava finalizar seu desenvolvimento.

Flames of Eternity alterou substancialmente alguns elementos de enredo encontrados em Crimson Echoes e rebalanceou o combate. O projeto foi alvo de críticas pela Kajar Laboratories e teve reação mista dos fãs por modificar alguns elementos narrativos, em vez de focar exclusivamente em finalizar o jogo com a visão da equipe responsável pela ROM. Em defesa, a Metronome Project — responsável pela nova versão — atribuiu as mudanças à descaracterização dos personagens.

O projeto não recebe atualizações desde 2021, quando a Metronome Project publicou em seu blog que ainda procurava desenvolvedores dispostos a levar Flames of Eternity à conclusão, mencionando a pandemia de COVID-19 e revezes na vida pessoal dos envolvidos como fatores de interrupção.

"O Mês que Poderia ter Sido"

Em homenagem ao "mês que poderia ter sido" — o lançamento de Chrono Trigger: Crimson Echoes em 31 de maio de 2009 —, a equipe responsável pelo projeto criou o CEMemoriallink outside website, um canal no YouTube com o playthrough completo da versão beta, que estava 98% concluída. Esta se tornou a única maneira de fãs conhecerem a (quase) versão final do título, conforme concebido pela Kajar Laboratories.

A história completa do desenvolvimento ainda está disponível na Chrono Compendiumlink outside website. Os registros a respeito da trama e dos personagens, com decisões como dar voz a Crono em vez de mantê-lo como protagonista silencioso, ou a interpretação de Lavos como um reflexo do desejo evolutivo da humanidade levado ao extremo, demonstram o cuidado e a dedicação que a equipe teve com o projeto e o quanto uma única mídia é capaz de fazer uma comunidade inteira repensar a trama, redefinir conceitos estabelecidos nela e, finalmente, imaginar um novo jeito de interpretar sua mensagem.

A série Chrono continua sem um novo lançamento, e não há qualquer informação de um projeto em desenvolvimento. Conforme os anos passam, a história de Crimson Echoes pode terminar esquecida e soterrada nos confins da internet. Ao fim deste texto, porém, o título fanmade que nunca saiu merece ser celebrado como evidência de como a memória e o afeto de uma comunidade mantêm uma série viva, mesmo quando o mundo já seguiu em frente.