Este artigo contém spoilers.
O anúncio de Songs of the Past reviveu quase que imediatamente uma discussão que parecia encerrada desde Blood & Wine: afinal, ainda existe espaço para continuar a história de Geralt de Rívia sem comprometer o desfecho de The Witcher 3?
Durante anos, a própria CD Projekt RED tratou Blood & Wine como o encerramento definitivo do personagem. A expansão não apenas dava ao bruxo um raro momento de estabilidade, mas também funcionava quase como uma despedida em termos simbólicos. Geralt encerrava sua jornada em Corvo Bianco cercado de tranquilidade, algo extremamente raro dentro do universo criado por Andrzej Sapkowski.
Por isso, Songs of the Past parece apontar para uma direção muito diferente da adotada em Wild Hunt. O próprio nome da expansão sugere uma narrativa menos centrada em ameaças de escala global e mais ligada às marcas deixadas pelo passado de Geralt. E, honestamente, faz bastante sentido que a CD Projekt siga esse caminho.

Os livros de Sapkowski sempre trabalharam a ideia de que o passado nunca abandona completamente seus personagens. Quase toda grande relação construída ao longo da saga retorna em algum momento carregando culpa, arrependimento, ressentimento ou consequências inesperadas. Nesse sentido, Geralt passa boa parte da franquia tentando fugir disso sem nunca conseguir de fato.
Assim, Songs of the Past talvez seja menos uma continuação tradicional e mais uma história sobre o legado de um dos personagens que se tornou favorito de muita gente.
O destino de Ciri ainda parece longe de ser encerrado
Mesmo que The Witcher 4 marque uma nova fase da franquia centrada em Ciri, é difícil imaginar Songs of the Past ignorando completamente os acontecimentos de Wild Hunt.
No final considerado mais positivo do jogo, Ciri sobrevive ao confronto contra a Geada Branca e decide seguir o caminho de bruxa. O problema é que The Witcher 3 praticamente encerra sua participação no instante em que essa nova vida começa. Existe um vazio narrativo enorme entre aquela decisão e o futuro da personagem.
Isso se torna ainda mais relevante quando se observa a forma como os livros tratam a relação entre Geralt e Ciri. Muito mais do que pai e filha adotivos, os dois representam quase uma tentativa desesperada de construir algum tipo de família em um mundo constantemente destruído por guerras e violência política.

Songs of the Past pode explorar justamente o que acontece depois que essa missão finalmente termina.
Durante toda a saga literária e os três jogos principais, Geralt vive movido pela necessidade de proteger Ciri. Quando Wild Hunt termina, ele finalmente perde esse propósito, e talvez esse seja exatamente o ponto da expansão: mostrar um Geralt tentando lidar com a própria identidade depois de cumprir aquilo que definiu sua vida por décadas.
Existe até espaço para explorar um tema muito presente nos livros de Sapkowski: o medo constante da perda. Geralt nunca consegue viver suas relações de forma totalmente tranquila porque quase sempre acredita que tudo pode desaparecer a qualquer momento. Uma narrativa centrada em memórias encaixaria perfeitamente nesse tom mais melancólico.
O retorno de antigos companheiros é inevitável
O título Songs of the Past praticamente convida a expansão para revisitar personagens antigos da franquia.
Eskel talvez seja o exemplo mais óbvio. Nos livros e jogos, ele funciona como um reflexo de Geralt. Os dois possuem trajetórias parecidas, compartilham experiências em Kaer Morhen e representam uma geração de bruxos que lentamente desaparece do Continente. Apesar disso, Wild Hunt utiliza relativamente pouco o personagem depois da batalha contra a Caçada Selvagem.
Uma expansão mais focada em relações pessoais poderia aprofundar justamente o que os jogos sempre deixaram parcialmente em aberto: como os bruxos enxergam o próprio fim enquanto o mundo deixa lentamente de precisar deles.
Lambert também possui um arco extremamente interessante para revisitar. Diferente de Geralt e Eskel, ele nunca conseguiu aceitar totalmente a própria condição como bruxo. Em vários momentos de The Witcher 3, Lambert demonstra profundo ressentimento em relação à Escola do Lobo e ao destino imposto ainda na infância.

Dependendo das escolhas feitas pelo jogador, Lambert abandona Kaer Morhen ao lado de Keira Metz em busca de uma nova vida. Isso cria uma possibilidade narrativa interessante porque Songs of the Past pode mostrar antigos bruxos tentando existir em um mundo que já não possui espaço para eles.
Nos livros, Geralt constantemente encontra ruínas de ordens antigas, reinos destruídos e tradições desaparecendo lentamente. Assim, grande parte da narrativa trabalha justamente a ideia de que quase tudo eventualmente entra em declínio.
Os livros oferecem pistas importantes para a expansão
Existe também a possibilidade de Songs of the Past recuperar elementos que os jogos nunca exploraram totalmente da obra de Sapkowski.
Uma personagem que imediatamente vem à mente é Essi Daven, conhecida pelos leitores como “Pequeno Olho”. Ela aparece no conto Um Pequeno Sacrifício, um dos capítulos mais trágicos de toda a saga literária.
Essi se apaixona por Geralt durante uma missão envolvendo conflitos políticos e sereias, mas percebe rapidamente que ele continua emocionalmente preso a Yennefer. A história termina de forma cruel anos depois, quando é revelado que Essi morreu durante uma epidemia.

O mais importante não é apenas a personagem em si, mas o impacto emocional que ela deixa em Geralt. Sapkowski usa esse arco para mostrar como o bruxo frequentemente destrói relações importantes justamente por nunca conseguir se desconectar completamente do próprio passado.
Songs of the Past poderia facilmente resgatar esse tipo de memória. Não necessariamente através de flashbacks literais, mas usando pessoas, locais ou acontecimentos antigos que obriguem Geralt a confrontar escolhas que ele preferiu esquecer.
Outro elemento importante dos livros é a relação do protagonista com Kaer Morhen. Os jogos mostram a fortaleza já em decadência avançada, mas Sapkowski sugere frequentemente o peso simbólico daquele lugar para os últimos bruxos vivos. Uma expansão focada em memórias poderia explorar eventos anteriores à queda definitiva da Escola do Lobo ou até consequências tardias da destruição causada pela Caçada Selvagem.
Songs of the Past pode funcionar como uma despedida mais íntima
O aspecto mais interessante da expansão talvez seja justamente o fato de ela não precisar escalar novamente para uma ameaça de nível sem precedentes.
Wild Hunt já levou Geralt ao limite máximo possível dentro daquela história base e Blood & Wine encerrou sua trajetória oferecendo algo raro: a paz. Por isso, transformar Songs of the Past em mais uma história sobre salvar o mundo provavelmente diminuiria o peso emocional do encerramento anterior e teria potencial para entrar em clichês.
Uma narrativa menor e mais pessoal parece muito mais coerente com o momento atual da franquia.
Isso também ajuda a preparar o terreno para The Witcher 4. A CD Projekt claramente está entrando em uma nova fase da série, agora centrada em Ciri. Nesse contexto, Songs of the Past pode funcionar quase como um último olhar para a vida de Geralt antes que a franquia siga definitivamente em outra direção.
Até agora, a CD Projekt RED confirmou apenas que a expansão será protagonizada por Geralt e que mais detalhes serão revelados futuramente. Ainda assim, o título escolhido já oferece pistas suficientes para imaginar uma história menos preocupada em aumentar a escala e mais interessada em revisitar as escolhas que acompanharam Geralt desde os livros de Sapkowski até o final de Wild Hunt.










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