Na BGS do ano passado, a vinda do titã da indústria dos games, Hideo Kojima, parou o evento de uma forma literal e impressionante. Houve momentos em que a passagem de pessoas nas áreas e corredores próximos ao palco de Meet&Greet era completamente impossível, de tanta gente se apertando e gritando para tentar ver um pedacinho que seja do seu ídolo.Já neste ano, em 2026, o contraste com a situação dos convidados internacionais era gritante. Os convidados não eram desconhecidos de forma alguma, incluindo nomes como Kenji Kanno, criador do sucesso Crazy Taxi, Al Hope, diretor do aclamadíssimo Alien: Isolation, e o icônico dublador que emprestou sua voz ao encanador italiano mais famoso do mundo, Charles Martinet, a voz do Mario, mas, mesmo assim, a demanda e o interesse do público eram de inexistentes a pequenos, no máximo. E o que pode ter causado essa diferença tão gritante?A idolização do streamerEm um outro artigo recente publicado aqui na UmGamer sobre a BGS, foram relatadas duas experiências presenciadas pela nossa equipe, uma delas sendo a multidão impressionante que corria pelos corredores do evento com o celular em riste, gritando por um youtuber/streamer que tinha acabado de chegar ao evento. A outra foi o fato de que, depois de aguardarmos por meia hora a abertura da fila, havia no total sete pessoas junto conosco esperando para ver o Al Hope.Esse contraste é uma evidência inegável da desconexão que parece acontecer cada vez mais nos dias atuais: a grande massa de público é muito fã dos streamers e youtubers que jogam aqueles jogos, que criam conteúdo sobre eles, mas muitas vezes não chegam a ter o menor interesse nas pessoas por trás de tudo, que criaram o game para começo de conversa. Ao mesmo tempo em que a fila do Al Hope contava com sete pessoas e a produção da BGS anunciava que ainda havia vagas e tempo de sobra para tirar foto com o Kenji Kanno, no palco ao lado dezenas de pessoas se acumulavam em uma fila para conhecer um streamer que teria um Meet&Greet naquele mesmo horário.O motivo para isso é muito simples, claro. Os devs e criadores trabalham “nas sombras”, por trás dos panos, enquanto os criadores estão ali praticamente 24/7; as pessoas costumam acompanhar seus streamers ou youtubers favoritos o dia inteiro, principalmente hoje em dia, com a facilidade que as redes sociais criaram, e é infinitamente mais fácil você se apegar a uma figura que você vê sempre do que a alguém que aparece de vez em quando e muitas vezes não tem todo aquele “carisma de influencer” que os streamers e youtubers têm. E daí para criar uma relação parassocial é um pulo.Usando o Cellbit apenas de exemplo, ele já jogou o Alien: Isolation. Se ele estivesse no evento, qual seria a proporção de pessoas querendo ver ele e querendo ver o Al Hope?Essas relações, sejam elas parassociais ou não, criam, por sua vez, um posto de “famoso”, elevando essas pessoas ao status de celebridades dentro do seu público e ofuscando, de certa forma, não por culpa dos criadores, as pessoas sem as quais eles nem teriam conteúdo para jogar e streamar. Se o Alanzoka, por exemplo, ou o Cellbit estivessem nessa BGS, eles não teriam como sequer andar devido às multidões que certamente os cercariam. Até mesmo youtubers “menores” e de nichos não relacionados a games estavam parando o evento, com os fãs se organizando em uma fila espontânea no meio da praça de alimentação para tirar foto com eles, fila que era pelo menos dez vezes maior que a do Al Hope ou a do Kenji Kanno.Enquanto isso, o Charles Martinet, que em outras vindas para a BGS já foi a estrela do estande da Nintendo, parando metade do evento para conhecê-lo, andava tranquilamente e sem seguranças através do evento, com praticamente ninguém parando-o para cumprimentar ou tirar fotos.E o que está acontecendo cada vez mais tem tudo a ver com esse status de celebridade. Muito se fala na vinda do Kojima em 2025, e claro, ele é inegavelmente um dos maiores desenvolvedores de jogos da atualidade, mas também é impossível afirmar que absolutamente todo mundo ali era fã assíduo dos jogos dele, muitos sendo mais fãs do Kojima como pessoa e como influenciador, principalmente desde a sua saída da Konami. Muitos apenas queriam uma foto ou um autógrafo com um dos devs mais famosos da atualidade, e eu conversei em primeira mão com pessoas na época que me relataram exatamente isso.Muitos sequer sabem que essa não foi a primeira vinda do Kojima para a BGS. Eu estava lá em 2017, quando ele veio pela primeira vez, e foi uma experiência tão diferente que parecem ser duas pessoas diferentes. A demanda já era alta, claro, mas o espaço ao redor do Meet&Greet estava cheio com umas poucas dezenas de fãs extremamente respeitosos, e o dev atendeu a todos da fila tranquilamente, dirigiu algumas palavras para nós que não conseguimos senha, julgou o concurso cosplay, interagiu bastante com os cosplayers, etc.O público era completamente outro na época; a BGS pré-pandemia tinha um foco muito maior nos gamers, nos fãs dos convidados internacionais e dos jogos apresentados ali, e o abismo de diferença entre as duas experiências de BGS só aumenta. É como se os devs, dubladores e figuras da indústria tivessem só mais dois caminhos: ou você consegue “furar a bolha” e alcançar esse posto de famoso, ou o público mais jovem vai se esquecer de você.Uma comunidade que se destacaÉ claro, esse cenário, como absolutamente tudo na vida, tem suas exceções. Novamente podemos traçar um paralelo com a idade do público, pois, enquanto o público mais jovem busca por youtubers no evento, algumas comunidades, principalmente de jogos mais antigos, que mantêm um público fiel, têm outras prioridades, e nenhum nicho observado nesses últimos anos de BGS é tão fiel e interessado nos criadores dos games como o fandom da Square Enix.Naoki HamaguchiCom grandes méritos para a equipe da Square Enix LATAM, os convidados que mais movimentaram o público nos últimos anos foram os ligados principalmente a Final Fantasy. Em 2023, tivemos Naoki Yoshida, o famoso Yoshi-P, e Koji Fox. Ano passado, as presenças de Naoki Hamaguchi e Yoko Shimomura movimentaram centenas de fãs que genuinamente ficaram emocionados de conhecer pessoas que foram tão importantes para os jogos que moram no coração dessas pessoas, e dão a importância que o trabalho dessas pessoas merece.É claro que generalizações nunca são boas, mas a diferença de faixas etárias se mostra cada vez maior e reflete diretamente na receptividade das atrações atualmente. Até mesmo o Kojima entra nesse porém, já que uma grande parte das pessoas que cresceram jogando os jogos dele já não são jovens hoje em dia.Uma figurinha já para lá de carimbada na BGS é o músico Shota Nakama, criador da Video Game Orchestra e da Sonic Orchestra, que ganhou imensa popularidade aqui no Brasil por conta da sonoridade do seu nome. Em uma das suas primeiras vindas, eu esperei por mais de uma hora para tirar uma foto com ele e conhecê-lo, e a surpresa dele quando ouviu de mim que eu fiz isso por ser fã do trabalho dele em jogos que eu amo, como Final Fantasy XII e Final Fantasy XV, e não meramente pela piada com seu nome, chegou a ser engraçada. Ele é o exemplo perfeito de alguém que lota as suas apresentações e Meet&Greets na BGS, mas a grande massa são jovens querendo uma foto com o famoso Shota pela piada, e não fãs do seu trabalho de fato; ou seja, ele atingiu esse status de “famoso” por aqui, mas por outros motivos, novamente não ligados ao trabalho de desenvolvimento de games.Shota NakamaConclusãoA BGS sempre foi o meu evento preferido de games, por um motivo muito simples: eu já vivi tantos momentos mágicos na BGS, conheci pessoas responsáveis por jogos que me tornaram a pessoa que sou, conversei com ídolos que eu nunca sonhei em conhecer e ouvi palavras de encorajamento de todos.Na edição de 2014, eu conversei longamente com o Ed Boon, no meio do evento, em um dos momentos que mais guardo com carinho. Ouvi da Yoko Shimomura que o carinho dos fãs, como eu, dá sentido ao trabalho dela; conversei com o Hamaguchi sobre como FF7 mudou minha vida. Até mesmo nesta edição de 2026, encontrei e conversei bastante com o Kenji Ozawa, co-diretor de Visions of Mana e animador de um dos jogos que eu mais amo, Rule of Rose. E mesmo em meio às inúmeras críticas que essa edição está recebendo, eu saí de lá me sentindo satisfeita e realizada por conta desse único encontro.Um movimento que tem aparecido cada vez mais nas redes sociais são pessoas justamente reclamando que houve poucos streamers e criadores “famosos” na BGS, e que o evento seria principalmente para ver os amigos e encontrar e tirar foto com o seu YouTuber preferido, mas eu não poderia discordar mais dessa opinião. A essência da BGS para mim é você ter a possibilidade de jogar demos dos seus jogos preferidos e mais aguardados, e conhecer figuras e convidados da indústria que, de outra forma, você provavelmente nunca iria conhecer.É um momento inexplicável para alguém que ama videogames tanto quanto eu: você trocar algumas palavras com alguém que diretamente fez aquela obra de arte que você tanto ama. E eu espero de todo o coração que a BGS se reinvente e não perca a sua essência de ser um espaço fenomenal para os gamers, cheio de oportunidades e conversas incríveis esperando para acontecer, deixando os youtubers e streamers um pouco de lado em prol de um público apaixonado que tem cada vez menos eventos e oportunidades de viver um momento assim.
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