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Review: Quarantine Zone: The Last Check - Quando Errar Dói e A Experiência é Brutal

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Em Quarantine Zone: The Last Check, você não atira, não corre e não salva o mundo. Você decide quem vive. Neste review, veremos a experiência pesada e cheia de dilemas do novo jogo da Devolver Digital, que mistura burocracia, apocalipse zumbi e escolhas morais.

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revisado por Romeu

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Uma Zona de Quarentena

Quarantine Zone: The Last Check é novo título da Devolver Digital que não chega chutando portas com tiros e explosões. Ele chega em silêncio, com uma cabine apertada, uma mesa cheia de equipamentos estranhos e uma fila de pessoas exaustas, machucadas, sujas e desesperadas. Ao invés de usar uma arma, o jogo te dá responsabilidade. Aqui você não é um herói, apenas um porteiro do fim do mundo.

Essa escolha de gameplay já define quase tudo. Você não é o cara que vai salvar a humanidade, é só mais um sobrevivente tentando manter uma ordem frágil enquanto o mundo desmorona do lado de fora. O apocalipse já aconteceu. O que resta agora é administrar os escombros.

Vivendo em um Mundo Que Já Perdeu

A primeira impressão que temos é que o jogo nos lembra bastante Papers, Please. Mas, em vez de carimbar passaportes, você decide destinos. Ao invés das fronteiras políticas, decidimos a linha entre a vida e a morte. Cada pessoa que aparece na sua frente não é apenas um NPC, é um dilema. O jogo não quer que você seja bom. Ele quer que você escolha e arque com as consequências.

A premissa é simples: o mundo acabou e não existem mais sociedades organizadas. Restaram zonas isoladas tentando sobreviver enquanto uma infecção transforma pessoas em algo que não é mais humano. Você trabalha no último posto de triagem antes de uma área considerada segura.

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Do lado de fora, só existem confusão, desordem e caos. Do lado de dentro, uma tentativa desesperada de ordem. Essa divisão reflete perfeitamente o espírito do jogo. O jogador está entre dois mundos. Quem entra tem chance e quem fica provavelmente não verá amanhecer.

O jogo não tem longas cutscenes e nem diálogos cinematográficos para construir esse cenário (e nem precisa). Ele confia no ambiente, nos olhares, nos gestos e na forma como as pessoas falam. Algumas imploram, outras mentem, tentam parecer fortes, mas estão quebradas por dentro. O apocalipse retratado no game não é bonito. É feio, cansado e principalmente humano.

A Rotina em Meio ao Fim

A jogabilidade de Quarantine Zone é baseada em um loop simples: uma pessoa chega, você a examina usando ferramentas como scanner corporal, observação visual, análise de comportamento e decide se ela entra, vai para quarentena ou é rejeitada.

No começo, tudo parece controlável. Você aprende os sintomas básicos e a usar os equipamentos. Começa a achar que entendeu o jogo, e então... ele começa a brincar com você.

Aparecem casos ambíguos, algumas pessoas parecem saudáveis demais, outras claramente doentes, mas ambas com histórias convincentes. Existem casos de gente que não bate com os próprios documentos, outras falam demais e algumas simplesmente quase não falam.

A partir desse momento, você começa a se questionar se tem certeza ou não, e isso muda tudo. Cada decisão vem com um “e se?”: "E se eu estiver errado?", "E se essa pessoa for saudável?", "E se eu deixar passar alguém infectado?"

Essa dúvida constante é o a principal motivação que o jogo nos deixa. Não existe uma escolha perfeita, apenas um ser humano trabalhando para que o menor dos males aconteça naquele momento.

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A Burocracia e Escolhas que Abrem Feridas

É estranho dizer isso, mas Quarantine Zone transforma burocracia em "ação". Preencher formulários, observar, escanear e comparar pessoas. Tudo isso vira uma mecânica seguida de tensão. Em vez de reflexos rápidos, o jogo nos pede atenção e leitura de sinais sutis.

Você começa a observar detalhes que em outros jogos seriam irrelevantes. Olhos vermelhos, tremores, respostas vagas e pequenas inconsistências de informação. O jogo te treina a desconfiar de tudo e, quando você percebe, já está envolvido em um mundo apocalíptico com medo de deixar pessoas infectadas passarem ou condenar alguém saudável. A ideia não é apenas avançar, o jogador tenta ao máximo não se achar um monstro com suas decisões erradas.

A melhor parte de Quarantine Zone: The Last Check não é sua mecânica, mas o que ela provoca dentro do jogador. Cada decisão parece pequena no papel, mas enorme na cabeça. Mandar alguém embora não é apenas apertar um botão errado, é imaginar aquela pessoa do outro lado, cercada por mortos, sem comida, sem abrigo e sem chance.

Ele não te pune com cutscenes dramáticas, ao invés disso, ele não mostra o que acontece depois e isso é que torna o jogo intenso. O game deixa você completar os espaços com a sua própria imaginação e você completa... sempre completa.

Às vezes, rejeitamos alguém por: simplesmente algo não bater, um olhar estranho, uma resposta atravessada ou simplesmente pelo nosso instinto. Minutos depois, ficamos nos perguntando se não condenamos uma pessoa saudável. Outras vezes deixamos passar alguém que parecia inofensivo… e pagamos o preço depois.

Essa culpa silenciosa é o que torna o jogo especial. Ele não te trata como herói e nem te absolve, apenas segue em frente, como o mundo é, indiferente às suas escolhas e intenções. E aos poucos percebemos que o jogo não é sobre acertar, mas sobre carregar o peso dos nossos erros.

O Desconforto é o Propósito

Diferente de muitos jogos que tentam agradar o tempo todo, Quarantine Zone nos traz o desconforto. Ele quer que você se sinta mal em certos momentos, que duvide de si mesmo, quer que perceba que, em situações extremas, não existe escolha certa.

A maioria dos jogos oferece caminhos “bons” e “maus”. Aqui, quase nunca existe o “bom”, só o menos pior. É o necessário naquele instante. Essa experiência pode não parecer divertida no sentido "tradicional". Mas acaba nos empolgando e incomodando.

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Visual Simples, Atmosfera Forte

Quarantine Zone não impressiona graficamente. Os modelos são simples, com cenários pequenos. Mas tudo isso encaixa bem com o universo que ele constrói. Nada parece permanente, tudo é improvisado e frágil. A sensação é de que a base pode ruir a qualquer momento. Isso deixa a sensação de que estamos vivenciando os restos de uma civilização que já perdeu a guerra.

A iluminação é fria, os ambientes apertados, falta de cor, tudo colabora para criar uma sensação de desgaste. Você não sente que está jogando algo feito para ter gráficos absurdamente lindos, a ideia é ser feio, cansado e sem esperança. O jogo não precisa ser bonito. Ele só precisa ser honesto. E ele é.

O Silêncio Como Ferramenta e Sobrevivência

O som é usado de forma muito inteligente. Não há músicas que trazem emoção. Existe o silêncio, ruídos secos, passos, vozes cansadas e o ambiente fala pouco. O clima é pesado, o silêncio entre uma decisão e outra cria um vazio desconfortável. O jogo te obriga a desacelerar em uma época em que os jogos sempre pedem pressa. Essa escolha de ritmo faz com que cada interação pareça maior do que realmente é. Um simples botão vira uma sentença.

Além da triagem, você também precisa cuidar da base. Os recursos são escassos: comida, energia, remédios e defesas são como água potável em meio ao deserto. Você precisa administrar o pouco que tem. Isso traz contexto às suas escolhas: às vezes queremos ajudar, mas simplesmente não podemos porque não temos suprimentos e nem estrutura.

Nessa hora, percebemos que, muitas vezes, não estamos rejeitando alguém por desconfiança, mas pela simples necessidade de não ter como sustentar aquela pessoa. É nesse ponto que o jogo deixa de ser apenas um simulador de triagem e se transforma em uma experiência sobre limites. "Até onde você consegue ir sem se quebrar?"

Mesmo com a parte de gerenciamento, que em muitas vezes pode ser profunda, ela funciona tão bem quanto o ato de decidir o destino das pessoas. Mas serve como pano de fundo para a gameplay.

A Experiência De Jogo

Esse não é um jogo para quem busca ação constante, tiros, explosões e ritmo acelerado. Quem entra esperando um survival tradicional vai estranhar, pode se frustrar e achar lento. Mas para quem curte experiências que desafiam mais a cabeça do que os reflexos, que usam o jogo como ferramenta para provocar sensações diferentes, Quarantine Zone é perfeito e entrega algo único.

Ele não te diverte no sentido clássico. Ele te envolve, prende e incomoda. É o tipo de jogo que se joga em silêncio. Que não vira conversa sobre gráficos ou mecânicas, mas sobre escolhas.

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Conclusão

Quarantine Zone: The Last Check não é um jogo confortável. Não é para você se sentir um herói, apenas que se sinta no controle. O game nos mostra que somos humanos em um mundo que já perdeu quase toda a humanidade.

Embora tropece em alguns aspectos técnicos, podendo cansar com o tempo e não agradar quem busca adrenalina constante, ele acerta em algo: transformar escolhas pequenas em algo enorme. Sobreviver sem ser herói; errar tentando acertar; entender que, em certos cenários, não existe final feliz, apenas continuar o caminho.

Você não sai dele lembrando de fases, mas não esquece as pessoas. E talvez isso seja o mais belo e assustador de tudo.

E você, Quarantine Zone: The Last Check? Deixe sua opinião nos comentários e até a próxima.