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A História do PS Vita: O Portátil Que Poderia Ter Derrubado o Nintendo Switch

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Conheça a história do Ps Vita, o portátil que tinha todas as funções do Nintendo Switch mas a Sony não soube aproveitar

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revisado por Romeu

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PS Vita: A Breve Vida de um Portátil Poderoso

No final dos anos 2000, a Sony se recuperara de um início difícil com o PlayStation 3, o console estava se estabelecendo como um grande sucesso, o PlayStation Portable (PSP) havia provado que era possível desafiar a Nintendo no mercado de portáteis, vendendo cerca de 80 milhões de unidades.

Em 2009, rumores sobre um novo portátil da empresa começaram a circular. A expectativa era de que a Sony traria um console revolucionário e o resultado foi o PlayStation Vita, um console com uma tecnologia impressionante para a época, mas foi marcado por desafios, decisões erradas e uma morte prematura. Esta é a história de um portátil que tinha tudo para desbancar a Nintendo em seu próprio território e mudar a indústria bem antes do Nintendo Switch aparecer.

A Concepção do Portátil

Os primeiros rumores sobre o sucessor do PSP, que então era chamado internamente de "Next Generation Portable" (NGP), indicavam um console de poder nunca visto na indústria. Relatórios de 2009 mostravam que seu desempenho gráfico seria comparável ao PlayStation 3. Em janeiro de 2011, em uma "PlayStation Meeting" no Japão, a Sony revelou o projeto ao mundo.

O presidente Kazuo Hirai apresentou uma visão ousada: um dispositivo que uniria a experiência de um console de mesa com a liberdade do jogo portátil. A filosofia era oferecer botões físicos e dois controles analógicos para os jogadores tradicionais, ao mesmo tempo que incorporava tela touch screen para atrair o novo público mobile.

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O protótipo inicial, com imagens vazadas em 2010, mostrava um design semelhante ao do PSP Go, mas problemas de superaquecimento levaram a equipe a adotar um formato mais próximo do PSP original. O hardware final era uma maravilha da engenharia: um processador ARM Cortex-A9 de quatro núcleos, uma GPU quad-core SGX543MP4+ e uma tela OLED (algo bem à frente de seu tempo) sensível ao toque de 5 polegadas.

Assim como um painel traseiro sensível ao toque e duas câmeras, que prometiam novas formas de interação e jogos de realidade aumentada, recursos muito à frente de seu tempo. Em junho de 2011, na E3, o console recebeu seu nome oficial: PlayStation Vita, onde "Vita" significa "vida" em latim, simbolizando sua missão de ser um dispositivo central na vida de entretenimento do usuário.

O Lançamento e os Primeiros Sinais de Problema

O PS Vita chegou ao Japão em 17 de dezembro de 2011 e no resto do mundo em fevereiro de 2012, com um preço inicial de US$249. O lançamento foi acompanhado por uma série de títulos de peso que mostravam o poder do sistema, como Uncharted: Golden Abyss, WipEout 2048 e Gravity Rush.

As vendas iniciais foram boas, mas logo um obstáculo surgiu: os cartões de memória. Diferente do PSP, que usava um tipo de mídia universal UMD, o Vita adotou um novo cartão bem mais problemático, cartões de memória flash proprietários e extremamente caros para salvar dados e jogos digitais.

Do outro lado, a Nintendo, com seu 3DS, se recuperava de um início fraco por meio de cortes de preço e de uma biblioteca de jogos exclusivos. Do outro lado, os smartphones (iPhone e Android) que estavam em plena ascensão, oferecendo jogos "bons o suficiente" a preços baixos ou gratuitos em dispositivos que as pessoas já carregavam no bolso.

O Vita era caro e tinha uma biblioteca que ainda engatinhava, lutando para justificar sua existência neste novo mundo. Como observado por analistas, o console tentou ser um dispositivo de entretenimento multimídia completo, mas como reprodutor de mídia era mediano, e como ferramenta de conectividade, ficou obsoleto rapidamente em concorrência aos smartphones.

O Encontro com os Fãs

Por volta de 2013, diante das vendas estagnadas do console e do afastamento de grandes estúdios, a Sony foi forçada a repensar sua estratégia. Em 2014, lançou um modelo redesenhado, o PS Vita (modelo PCH-2000) também conhecido como PS Vita Slim. Mais fino, leve e com bateria de maior duração, a tela OLED foi substituída por uma de LCD para reduzir custos, mas não resolveu o problema dos cartões de memória caros. Outro problema eram os jogos, sem o apoio de grandes publishers ocidentais, a Sony passou a buscar desenvolvedores independentes e empresas de médio porte japonesas.

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Essa mudança salvou o Vita de um desaparecimento total, mas ainda havia um longo caminho a percorrer. O Vita se tornou um console de nicho para: RPGs japoneses aclamados como Persona 4 Golden, visuais novels e uma enxurrada de títulos independentes ocidentais que encontravam no portátil uma boa parceria para seus jogos.

O recurso de Remote Play, que permitia transmitir jogos do PlayStation 4 para o Vita, também se tornou um excelente marketing, mesmo sendo mais um acessório do console de mesa do que um atrativo de venda. Esta estratégia de marketing não gerou vendas em massa, mas trouxe uma base de fãs dedicada e apaixonada, que valorizava a experiência de jogo portátil "premium" que o Vita oferecia.

O Fim do Caminho

A Sony interrompeu a produção de jogos físicos para o Vita em 2018 e, em 1º de março de 2019, descontinuou oficialmente o console em todo o mundo. As vendas totais foram estimadas entre 15 e 16 milhões de unidades, uma pequena fração das mais de 80 milhões do PSP e 76 milhões do Nintendo 3DS. Para a Sony, o Vita foi um fracasso comercial, levando a empresa a declarar publicamente que não tinha planos para um sucessor no mercado portátil.

Mas o legado do PS Vita é mais complexo do que seus números de vendas: para muitos jogadores, ele é lembrado como um console à frente de seu tempo. Sua ergonomia com dois analógicos se tornou o padrão para o jogo portátil de console.

A comunidade de entusiastas manteve o dispositivo vivo muito além de seu suporte oficial, explorando seu hardware e garantindo sua preservação. A parte mais curiosa é que o sucesso do Nintendo Switch, um console híbrido que entregaria experiências de console em formato portátil, comprovou que a visão original do Vita estava certa e à frente do seu tempo, mesmo que a Sony tenha falhado em sua execução e vamos entender o porquê a seguir.

O Despertar Como a Comunidade Redefiniu o PS Vita

Com o fim do suporte oficial do Vita em 2019, um novo começo se estabeleceu. A comunidade de desenvolvedores independentes encontrou no Vita algo que poderia ter mudado o rumo da história do portátil. Desenvolvedores autônomos descobriram que o Vita tem recursos nativos como parear controles bluetooth de PS3 ou PS4 (DualShock/DualSense); suporte a ports de jogos de PC e Android; rodar jogos de PSP, PS1 e versões (remasterizadas/adaptadas) de diversos jogos de PS2, como God of War Collection, Jak & Daxter, Sly Cooper e Metal Gear Solid 3.

A empresa poderia fazer parceria com a SEGA, Rockstar e vários outros estúdios: imagine poder jogar títulos como Crazy Taxi, Sonic Adventures 1 e 2, Bully, Diablo, Heroes of Might and Magic II, a /Saga Doom, Quake, Wolfenstein 3D, Portal, Max Payne 1 e 2*, entre outras centenas de títulos?

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O Vita tem suporte a uso de Cartões SD comuns (o que mudaria completamente a vida do portátil em termos de custo); Streaming de tela do Vita para PC e com um dock do PS Vita TV, transmitir diretamente jogos com resolução em 720p para a tv (exatamente como o Nintendo Switch faz); reprodutor de mídia e streaming; overclocking do console que permitiria rodar jogos mais robustos e incentivar estúdios a produzirem mais jogos; personalização da tela inicial; opções de usabilidade de todo o sistema do console; recurso de salvar o progresso do jogo em qualquer lugar permitindo que os jogadores retomem o jogo exatamente do ponto em que pararam — um precursor do que hoje é o Quick Resume do Xbox Series.

A comunidade não para e vive explorando e descobrindo funções que o Vita possui nativamente e que hoje vemos em consoles como Nintendo Switch, Xbox Series e Playstation 5. Uma reimaginação do console, transformando-o de um portátil subutilizado em uma das plataformas domésticas mais versáteis que existem. E talvez a ironia esteja aqui, a Sony tinha isso tudo desde seu lançamento e não soube aproveitar ou não teve a visão de futuro que a Nintendo teve com o Switch.

Conclusão

O PlayStation Vita permanece como um dos capítulos mais contraditórios e fascinantes da história dos videogames. Lançado como uma ambição tecnológica, ele carregava em seu hardware a promessa de um futuro que não se concretizaria sob o domínio da Sony. Sua jornada foi marcada por erros estratégicos cruciais — como os cartões de memória proprietários — e pela implacável mudança de mercado.

Hoje, com o ressurgimento do interesse por gaming portátil, impulsionado por dispositivos PC como o Steam Deck, o PlayStation Vita é revisitado não como um simples fracasso, mas como um precursor ambicioso e subaproveitado. Ele foi um guia em um momento em que o mercado se dividia, uma vítima de más decisões comerciais em um período de transição tecnológica e, mesmo após seu fim, como uma plataforma pode encontrar significado e amor de seus fãs mesmo quando perdeu a guerra pelo mercado convencional.

O Vita pode ter tido uma vida curta, mas, para seus fãs, ela foi intensamente vivida. Através do empenho e da paixão dos desenvolvedores, o Vita experimentou uma verdadeira reencarnação digital. Eles descobriram todo um potencial adormecido que a Sony não acordou.

A história do Vita é mais um capítulo da indústria que mostra que não basta uma visão ousada à frente de seu tempo, é preciso decisões de como redefinir e prolongar a vida de um console. Sua luz pode ter se apagado nos corredores da Sony, mas, nas mãos de sua comunidade, o Vita continua brilhando com intensidade.