Como tutoriais estão afastando os jogadores
O momento em que iniciamos um novo jogo, criamos muitas expectativas: além do investimento emocional, financeiro e de tempo, a primeira impressão sobre um jogo pode ser decisiva. Desde os tempos dos fliperamas e os primeiros consoles caseiros, o jogador precisava entender rapidamente o que fazer — não existiam longas explicações, era tudo pela ação direta. Um botão fazia o personagem pular, outro atacava, e o resto era aprendido na prática.
Nos últimos anos, uma discussão tem tomado a indústria: a forma como os tutoriais são apresentados aos jogadores e o impacto na retenção de público. Com jogos cada vez mais complexos, sistemas e interfaces carregadas de informações, os tutoriais se tornaram uma etapa "quase" obrigatória. Mas algo mudou no comportamento dos jogadores: quanto mais um jogo tenta ensinar antes das pessoas jogarem, maiores são as chances de ele ser abandonado antes de começar de verdade.

Cada vez mais títulos enfrentam um problema: a desistência logo nos primeiros minutos. E, em muitos casos, o culpado não é a dificuldade, a história ou a qualidade técnica, mas os tutoriais longos, fragmentados e excessivamente explicativos. Em vez de guiar, eles interrompem e afastam.
Uma discussão recente entre desenvolvedores japoneses revelou uma tendência preocupante - quanto mais um jogo tenta ensinar tudo antes de deixar o jogador jogar, maiores são as chances de ele ser abandonado e acabam sendo vistos como uma barreira que atrapalha em vez de ajudar. Neste artigo, veremos como os tutoriais precisam ser reimaginados para que os jogos não caiam no esquecimento antes de começarem.
O Paradoxo da explicação, estado de fluxo e tutoriais extensos
A origem desse problema muitas vezes está em uma falha entre os designers e o comportamento do usuário. O programador japonês Itchie, que já trabalhou em empresas como Square e SNK, compartilhou um problema pessoal durante o desenvolvimento de jogos para celular. Ele percebeu uma taxa de desistência alta logo no início do jogo, talvez os jogadores não estivessem entendendo as instruções, então ele incluiu mais explicações no tutorial. O resultado o surpreendeu: os jogadores sequer liam as instruções na tela, o verdadeiro motivo da desistência era o tempo de espera sem poder jogar. Então, Itchie reduziu o tempo do tutorial para trinta segundos e a retenção de jogadores melhorou significativamente.
O caso mostra que não se trata de clareza ou quantidade de informação, mas de como o jogador se envolve com o jogo. A espera passiva, sem emoção ou interação, é um dos maiores inimigos da experiência inicial. Para entender por que as instruções longas falham, é preciso olhar para o conceito de "Estado de Fluxo" onde jogadores buscam equilíbrio entre desafio e habilidade: quando um jogo fica travado e não oferece risco ou recompensa, ele quebra o fluxo.

Shimaguni Yamato, outro desenvolvedor experiente, destaca a necessidade de "mais clareza", sem eliminar o mistério e a empolgação. Xenoblade Chronicles 2* é muito citado como exemplo por apresentar mecânicas complexas por meio de tutoriais que interrompem a narrativa mesmo após dezenas de horas de jogo. Sistemas de jogo, por mais complicados que sejam, são melhor absorvidos quando o jogador já está envolvido e a necessidade de aprender surge da vontade de progredir, não de uma obrigação nos primeiros minutos de jogo.
A ansiedade do jogador moderno
Esse comportamento não surgiu do nada, o jogador vive em um ambiente com excesso de opções como serviços por assinatura, lojas digitais e jogos gratuitos que oferecem centenas de experiências. Se um jogo não prende a atenção rapidamente, ele é substituído. Tutoriais longos funcionam como um obstáculo para muitos jogadores, especialmente os mais experientes. A leitura de explicações detalhadas antes da ação gera frustração imediata, e a sensação que fica é: “eu ainda não estou jogando”.
Outro ponto vem de Hiroyuki Matsumoto, CEO da Flight Unit e designer de personagens de franquias como Atelier, ele diz que jogadores odeiam tutoriais porque querem jogar, não estudar. Matsumoto, com experiência como jogador, afirma que "mesmo quando o básico é explicado no início, a maioria das informações não é captada". O aprendizado passivo de ler textos, assistir a janelas com explicações ou memorizar comandos simplesmente não funciona bem em certos jogos.

Pequenos elementos visuais costumam ser muito mais eficientes - um círculo vermelho indicando um objetivo, um alerta rápido antes de usar um item ou uma falha que ensina mais do que qualquer texto. O jogador aprende errando, tentando e repetindo, algo que faz parte da essência do videogame desde sempre.
Nintendo e a arte do tutorial invisível
Ao discutir esse tema, o nome da Nintendo surge como referência. A empresa aperfeiçoou o que especialistas chamam de design invisível, em vez de parar o jogo para ensinar, o design de fase coloca um obstáculo que só pode ser superado com um pulo, o jogador aprende fazendo. A Nintendo chegou ao ponto de omitir tutoriais completamente em franquias como Mario Kart, onde a interface e o feedback visual são o aprendizado por osmose. Essa filosofia parte do princípio de que o manual de instruções não deve ser uma seção separada do jogo, mas sim a própria arquitetura dos primeiros níveis.

Em The Legend of Zelda: Ocarina of Time, o jogador aprende observando o ambiente, testando possibilidades e sendo recompensado pela curiosidade. Outros jogos seguem a mesma filosofia: fases iniciais que funcionam como aulas práticas, sem caixas de texto ou pausas - o jogo ensina enquanto acontece.
Quando o Jogo Ensina e Quando Vira Teste de Paciência
Alguns jogos apresentam tutoriais de forma natural, como Dark Souls, que ensina o básico em poucos segundos, mas deixa que o jogador descubra o restante na prática. Isso cria uma sensação de conquista e recompensa, já que o aprendizado está diretamente ligado à exploração e ao desafio.
Portal introduz conceitos gradualmente, integrados ao design dos puzzles. O jogador aprende enquanto resolve problemas, sem perceber que está sendo instruído. Essa forma de ensinar mantém a experiência e evita a sensação de estar preso em uma aula.

Os tutoriais longos se tornaram um teste de paciência e quem não suporta aquela sequência inicial abandona o jogo — mesmo que seja incrível, mesmo que depois da introdução tenha uma narrativa envolvente e mecânicas profundas. Em um mercado com lançamentos diários, jogos independentes e produções menores sofrem ainda mais, pois, em muitas das vezes, se o tutorial não causar uma boa primeira impressão, dificilmente o jogador voltará.
Desenvolvedores precisam repensar a forma como apresentam suas mecânicas, buscando soluções criativas que não afastem os jogadores. Tutoriais fragmentados, instruções visuais simples ou até mesmo como a Nintendo faz - sem explicações - deixando que a jogabilidade ensine naturalmente. É um desafio constante, pois a cada dia os jogos evoluem e os jogadores também, e não sabemos como será o pensamento dos jogadores do futuro.
Conclusão
Esse debate mostra uma mudança no design de jogos, onde o desafio atual não é explicar tudo, mas criar experiências que despertem curiosidade e vontade de continuar. Jogadores não precisam entender todos os sistemas nos primeiros minutos, eles precisam sentir que estão jogando, tomando decisões e participando ativamente. Tutoriais ainda têm espaço, mas devem ser sutis, distribuídos ao longo do jogo e, sempre que possível, integrados à jogabilidade.
A pergunta mais importante para um desenvolvedor talvez não seja “o jogador aprendeu tudo?”, mas sim, ele se divertiu o suficiente para querer continuar jogando? Essa é a chave para o sucesso ou não de um jogo.
E você, o que acha deste assunto? Os tutoriais te incomodam? Deixe sua opinião nos comentários.












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