Quando o Videogame Vira Problema Internacional
Videogame sempre foi visto como diversão, mas faz tempo que deixou de ser só isso. Hoje, jogos contam histórias complexas, abordam guerras reais, política, religião, sexualidade, violência e até economia. E quando esses temas cruzam fronteiras, o choque cultural é quase inevitável. O que é entretenimento em um país pode ser considerado ofensivo, perigoso ou até ilegal em outro.
Ao longo dos anos, vários jogos foram censurados, alterados ou banidos por motivos que vão desde violência extrema, símbolos religiosos, traumas históricos e preocupações com segurança nacional. E o mais curioso: nem sempre são jogos “pesados”. Desde jogos como Mario até jogos de celular, todos entram em algum terreno espinhoso para algumas pessoas.
A seguir, reuni alguns casos de jogos banidos ou censurados ao redor do mundo, explicando o contexto por trás de cada decisão.
GTA (Série)

A série de jogos Grand Theft Auto sempre foi alvo de polêmicas. Violência explícita, crimes, drogas, prostituição e um mundo aberto que basicamente te incentiva a tocar o caos. Mesmo assim, muitos países toleraram os jogos da série por anos.
A Tailândia não tinha um histórico de censura a jogos violentos. Isso mudou em 2008, quando um jovem chamado Polwat Chino assassinou um taxista em Bangkok. Durante o interrogatório, ele afirmou que o crime parecia fácil nos jogos de GTA e que precisava de dinheiro rápido para comprar uma cópia do game. A mídia caiu em cima do caso, transformando o jogo no grande vilão da história.
A repercussão foi tão grande que o governo decidiu banir a venda da franquia no país, e GTA virou símbolo de debate sobre influência dos videogames sobre a violência juvenil. Mesmo sem provas concretas de que o jogo causou o crime, a Rockstar acabou pagando o preço.
Mass Effect

Mass Effect é lembrado como uma das melhores franquias da BioWare. Suas escolhas mudam a história, afetam personagens e criam consequências reais dentro do jogo. E essa liberdade trouxe problemas para o jogo em Singapura.
Em Mass Effect, o jogador pode desenvolver relacionamentos românticos com personagens humanos e alienígenas, incluindo cenas de intimidade. Uma delas envolve uma alienígena da raça Asari, que tem aparência feminina. Para os órgãos reguladores de Singapura, esse tipo de conteúdo foi considerado inapropriado, especialmente por envolver relações interespécies.
O jogo foi proibido no país. Anos depois, com classificações etárias mais específicas, a franquia acabou sendo liberada, mas o episódio ficou como um exemplo de choque cultural entre narrativa ocidental e valores conservadores asiáticos.
Battlefield 3

A série Battlefield sempre buscou realismo visual e narrativo. Em Battlefield 3, uma das missões se passa em Teerã, capital do Irã. Para os desenvolvedores, era apenas mais um cenário de guerra moderna. Para o governo iraniano, foi visto como uma representação ofensiva e hostil do país.
O jogo foi oficialmente banido, surgindo relatos de lojas sendo invadidas e pessoas presas por possuírem cópias do game. Como a EA não possui distribuição oficial no Irã, a maioria dos jogadores acessava o game por meios alternativos, o que piorou ainda mais a repressão.
Wolfenstein e Wolfenstein 2: The New Colossus

Poucos países levam o combate ao nazismo tão a sério quanto a Alemanha. O uso de símbolos nazistas e qualquer forma de propaganda relacionada é ilegal, mesmo quando o contexto é crítico ou fictício.
A franquia Wolfenstein tem como foco matar nazistas em realidades alternativas e sofreu bastante com isso. Por muitos anos, os jogos foram banidos ou lançados com censura pesada no país. Suásticas foram removidas, uniformes alterados e até falas reescritas.
Já em Wolfenstein 2: The New Colossus, o jogador vive em um mundo onde os nazistas venceram a Segunda Guerra Mundial, um detalhe que certamente daria problema e deveria ser previsto antecipadamente pela empresa. A trama inclui símbolos, discursos e até uma versão fictícia de Adolf.
Para o lançamento na Alemanha, tudo precisou ser refeito. Símbolos foram removidos, falas alteradas e referências diretas ao nazismo substituídas por termos genéricos. Só assim o jogo conseguiu ser lançado legalmente no país.
O problema não era a violência, mas o fato de jogos serem considerados “brinquedos” pela legislação alemã, o que os tornava um alvo ainda mais restrito em termos de conteúdo histórico sensível.
Call of Duty: Black Ops II e Call of Duty: Modern Warfare 2

Call of Duty: Black Ops II se envolveu em polêmica ao retratar conflitos em países reais. No Paquistão, o governo considerou que o jogo mostrava o país de forma negativa e que sua narrativa era “desenvolvida contra o país”. A mesma justificativa foi usada para banir Medal of Honor: Warfighter. Ambos os jogos foram impedidos de serem vendidos.
Já em Call of Duty: Modern Warfare 2, poucas missões na história dos videogames causaram tanta polêmica e impacto quanto “No Russian”. O jogador participa — ou testemunha — um massacre em um aeroporto russo.
Mesmo com a Activision permitindo pular a missão e lançando versões editadas, a Rússia não aceitou. As autoridades consideraram a cena ofensiva e perigosa, especialmente por retratar cidadãos russos como vítimas em um ataque terrorista fictício. O jogo acabou sofrendo recall e foi proibido no país.
Mario Kart Tour e Mario Kart 8 Deluxe

Talvez o caso mais inesperado da lista seja Mario Kart Tour, um jogo aparentemente inofensivo, mas que acabou sendo banido na Bélgica por causa das loot boxes.
No país, sistemas de recompensas aleatórias compradas com dinheiro real são considerados jogos de azar. Como o jogo permitia gastar dinheiro sem saber o que viria nas caixas de itens, a prática foi considerada ilegal.
Os Países Baixos seguiram a mesma linha, e até órgãos de defesa do consumidor de outros países criticaram o modelo de negócios do jogo. A pressão foi tanta que a Nintendo removeu completamente as loot boxes em 2022.
Em Mario Kart 8 Deluxe, a personagem Inkling Girl fazia um gesto comemorativo dando uma banana com as mãos que, em algumas culturas, é visto como ofensivo — equivalente a mostrar o dedo do meio.
Após reclamações em países da Europa e América Latina, a Nintendo decidiu remover o gesto via atualização para evitar aumento na classificação etária e possíveis restrições de venda.
Uma censura preventiva, que mostra o cuidado que as empresas têm que ter ao adaptar seus jogos para diferentes públicos.
Pokémon e Pokémon Go

Nos anos 90, Pokémon virou um fenômeno. Desenho animado, jogos de Game Boy, cartas colecionáveis e uma febre que parecia imparável. Mas nem todo mundo abraçou Pikachu de braços abertos.
Na Arábia Saudita, a franquia foi proibida após autoridades religiosas alegarem que Pokémon promovia sionismo e jogos de azar. Segundo eles, os cards colecionáveis continham símbolos considerados não islâmicos, incluindo interpretações de algumas formas geométricas que lembrariam a Estrela de Davi.
O sistema de troca e competição envolvendo cartas foi comparado a apostas, algo severamente condenado no país. A franquia acabou sendo banida, tanto em jogos quanto em produtos relacionados.
A Nintendo respondeu dizendo que nunca criou símbolos religiosos intencionalmente e que Pokémon sempre foi pensado como entretenimento infantil. Mesmo assim, o estrago estava feito. Em outros países, a franquia também enfrentou restrições parciais, mas nenhuma tão radical quanto na Arábia Saudita.
Pokémon Go também sofreu, o jogo revolucionou o mercado mobile ao misturar realidade aumentada com exploração do mundo real. Mas essa inovação levantou alerta em vários países.
No Irã, o governo alegou que o uso de GPS, mapas e dados de localização poderia representar riscos, especialmente em áreas estratégicas. Outros países chegaram a restringir o acesso em locais específicos, como bases militares, mas o Irã foi o primeiro a proibir o jogo por completo.
The Witcher 2: Assassins of Kings

A Austrália tem um dos sistemas de classificação mais rígidos do mundo e The Witcher 2 acabou entrando em conflito com essas regras.
Segundo os órgãos reguladores, o jogo utilizava “sexo como recompensa”, algo considerado problemático na cultura australiana. Para contornar a situação, a CD Projekt Red alterou uma missão específica na versão australiana, enquanto o restante do conteúdo permaneceu praticamente intacto. Uma solução curiosa, mas necessária para liberar o jogo no país.
Fallout 3

Fallout 3 é um RPG que se passa em um mundo devastado por uma guerra nuclear. Radiação, cidades destruídas, bombas atômicas e consequências do apocalipse fazem parte da franquia. Para o público ocidental, isso sempre foi tratado como ficção distópica. No Japão, o assunto é bem mais delicado.
Durante o desenvolvimento da versão japonesa, a Bethesda precisou fazer alterações em uma missão secundária chamada "The Power of the Atom". Nela, o jogador pode decidir se explode ou não uma bomba nuclear que está no centro de uma cidade. A missão, por si só, já causava desconforto.
O problema maior foi a presença da arma chamada Fat Man, uma referência direta à bomba atômica lançada em Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial. Com o trauma histórico que o país sofreu em Hiroshima e Nagasaki, esse tipo de referência foi considerado extremamente sensível.
Para evitar polêmicas, nomes foram alterados, diálogos ajustados e referências suavizadas. O jogo não foi banido, mas passou por uma censura minuciosa para respeitar a memória histórica do povo japonês.
Far Cry 3

Muitas pessoas, ao jogar Far Cry 3, notaram as semelhanças com a Indonésia. Ilhas tropicais, vilas costeiras, mercenários armados, tráfico de drogas e violência desenfreada formam o cenário do jogo.
Para muitos jogadores, isso é apenas mais um ambiente exótico para explorar. Para o governo indonésio, o jogo mostrava o país como um lugar selvagem, corrupto e violento, enfatizando estereótipos negativos do país perante o mundo.
A repercussão no país foi suficiente para que o jogo fosse banido. Mesmo sem confirmação oficial da Ubisoft sobre a inspiração direta, o estrago já estava feito.
Tom Clancy’s Ghost Recon Advanced Warfighter 2

Esse é um caso raro e bastante específico. Ghost Recon Advanced Warfighter 2 foi, até hoje, o único jogo oficialmente banido na história do México.
O motivo foi a representação da Ciudad Juárez. No jogo, o local mostra conflitos armados intensos, com guerrilhas, tropas estrangeiras e caos urbano. O problema é que, na vida real, Juárez já enfrentava uma imagem negativa extremamente por causa da violência ligada ao narcotráfico.
O então prefeito da cidade considerou que o jogo fortalecia ainda mais essa visão negativa e pediu formalmente que o game fosse proibido. O pedido foi atendido pelo governo e o jogo acabou banido em território mexicano.
Conclusão
Esses casos nos ensinam uma coisa: videogame tem impacto real no mundo — e isso assusta muita gente. Jogos são muito mais do que passatempo, carregam cultura, política, religião, memória histórica e valores sociais. O que parece normal para um pode ser ofensivo ou inaceitável para outro país inteiro.
Quanto mais realista um jogo tenta ser, maior a chance de sofrer com limites culturais. E com a indústria crescendo cada vez mais, dá para apostar que essa lista só vai aumentar.
E você, o que achou desses banimentos? Deixe sua opinião nos comentários.











— Comments 0
, Reactions 1
Be the first to comment