Quando Grand Theft Auto surgiu em 1997, a proposta parecia simples e até provocativa: colocar o jogador no papel de um criminoso comum, solto em uma cidade aberta, incentivado a causar caos.
A execução, porém, revelou algo maior. Desde o início, a série apostou em liberdade total, identidade visual marcante e uma relação direta entre jogador e mundo.
Os primeiros passos
O primeiro GTA foi apresentado com câmera aérea, gráficos 2D e cidades estilizadas. Liberty City, Vice City e San Andreas já existiam como conceitos, ainda que muito básicos. O visual não buscava realismo, mas era bem definido. Ruas de fácil identificação, carros facilmente identificáveis e pedestres reconhecíveis mesmo à distância.
O gameplay se baseava em missões acessadas por telefones públicos, algo incomum na época. O jogador não tinha um protagonista definido ou nomeado. A figura central era quase um avatar anônimo, reforçando a ideia de que o foco não estava em quem você era, mas no que podia fazer dentro daquele espaço urbano caótico.
GTA II está entre nós, mas ainda em 2D
Em Grand Theft Auto II, lançado em 1999, a Rockstar — ainda DMA Design — manteve a visão aérea, mas refinou drasticamente a apresentação. A cidade ganhou um visual mais denso, com iluminação dinâmica, maior variedade de veículos e animações mais detalhadas. O mundo parecia mais vivo, mesmo sem abandonar o 2D.

O grande avanço no gameplay veio com o sistema de gangues. O jogador passou a navegar entre facções rivais, cada uma com identidade visual, comportamento próprio e reações diretas às ações cometidas. Missões para uma gangue tornavam outras hostis, criando consequências claras dentro do mundo.

A câmera aérea, agora mais fluida, permitia perseguições mais intensas e maior leitura do espaço urbano. O jogo deixava claro que o caos não era só permitido, mas esperado. A identidade de Grand Theft Auto começava a se solidificar como algo além de um simulador criminal.
GTA III: O Grand Theft Auto mais importante de todos
Sim, esse foi o GTA mais importante de todos. Não acredita? Esse produto simplesmente impactou a Rockstar, a PlayStation e diversos outros setores da indústria.

A proposta de “faça o que você quiser” em Grand Theft Auto chegou ao seu ápice. Dessa vez, o visual 2D não seria o suficiente. E foi aqui onde a DMA Design decidiu criar um novo mundo. Na época, Aaron Garbut afirmou: “Antes de Grand Theft Auto III, os jogos eram somente uma coisa para se jogar, uma aventura na qual você participou ou um quebra-cabeça que você resolveu. GTA III fez deles um lugar para se viver.”
Nos bastidores, quem entende de videogame mesmo quis sair na frente. A Sony viu a chegada da Microsoft com o Xbox e entendeu que a Rockstar e GTA III seriam uma ótima ferramenta para chamar a atenção dos jogadores. Os desenvolvedores e a editora japonesa não sabiam, mas a sorte os encontraria ao firmarem um acordo de exclusividade temporária.
Chris Deering, ex-Sony, contou como isso aconteceu ao GamesIndustry:
“Estávamos preocupados quando vimos o Xbox chegando. Sabíamos que a exclusividade era fundamental em muitos campos. Pouco antes do Natal, procuramos nossas parceiras com ofertas para manter seus jogos na próxima geração exclusivos no PlayStation por dois anos [...] E um dos acordos que fizemos foi com a Take-Two para os próximos três jogos Grand Theft Auto. Na época, não estava claro que Grand Theft Auto 3 seria tão grande quanto foi, porque costumava ser um jogo de cima para baixo. Foi muita sorte para nós. E, na verdade, sorte para eles, porque eles ganharam um desconto nos royalties que pagaram. Esses acordos não são incomuns em indústrias com plataformas. Incluindo hoje com coisas como mídia social.”

Apostando em Claude, o game teve de tudo na narrativa. Traição, cadeia, drogas e um desfecho muito mais impactante em relação aos seus antecessores. Histórico, o jogo lançou e já disparou como um dos mais vendidos dos EUA. Valeu a pena.
GTA Vice City e a liberdade passa a ser criativa
Já acharam o formato de mundo aberto capaz de conquistar o público. Agora, a ideia é ousar nas entregas, quem sabe até voltando no tempo.
Lançado em 2002 para PS2, GTA Vice City marcou um salto criativo decisivo para a Rockstar. O jogo abandonou o tom mais cru de GTA III e apostou em uma identidade forte, inspirada nos anos 80, com cores vibrantes, carros esportivos e uma trilha sonora marcante.
A ambientação em Vice City, cidade fictícia baseada em Miami, não serve apenas como cenário. Ela dita o ritmo do jogo, influencia as missões e reforça a sensação de ascensão no submundo do crime. Cada bairro reflete status, poder e a expansão do protagonista, Tom Vercetti.

No gameplay, Vice City refinou as bases de GTA III. O mapa mais compacto favorece deslocamentos rápidos, enquanto novas mecânicas, como compra de propriedades e missões ligadas a negócios, ampliam a sensação de progresso e domínio do jogador sobre a cidade.
GTA: San Andreas se destaca com CJ
Agora vamos falar do jogo que nos fez passar horas em locadoras e anotando macetes em cadernos. "Oh sh*t. Here we go again".

Lançado em 2004 para PS2, GTA San Andreas representou o maior salto de ambição da Rockstar até então. O jogo expandiu o mapa para um estado inteiro, com três grandes cidades, áreas rurais e estradas extensas.
A história acompanha Carl Johnson, o CJ, em seu retorno a Los Santos após a morte da mãe. Diferente dos protagonistas anteriores, CJ tem forte ligação emocional com a família, o bairro e o passado, o que dá peso narrativo ao enredo e conecta o jogador aos conflitos sociais retratados.
A grande jogada aqui é: nem todo mundo quis completar a história dessa vez. CJ era tão personalizável que as locadoras se enchiam de pessoas acionando combinações pelo simples prazer de causar o caos pelo mapa.

É errado falar sobre pirataria? Com certeza. Mas quantos compraram o PS2 desbloqueado e investiram naquele disco barato nas vendas perto da sua casa para se divertir jogando? Uma palavra para definir San Andreas? Geracional.
GTA IV: não é para se descartar, mas foi apenas “mais um dentro da evolução”
O salto mais ousado da franquia viria anos depois, com Grand Theft Auto IV, lançado em 2008. Aqui, a apresentação mudou completamente. A Liberty City tridimensional foi reconstruída com forte inspiração em Nova York, apostando em realismo, densidade urbana e um tom muito mais sóbrio.
Visualmente, GTA IV abandonou o exagero cartunesco e adotou uma paleta mais fria. O mundo parecia pesado, concreto e opressor. A cidade não era apenas cenário, mas parte ativa da narrativa. O jogador sentia o peso do espaço urbano em cada deslocamento.
O gameplay também passou por mudanças importantes. A direção dos veículos ficou mais realista, os combates ganharam física avançada e cobertura dinâmica, e as interações com NPCs se tornaram mais naturais. Tudo servia para reforçar a sensação de estar vivendo naquela cidade, não apenas brincando com ela.

Mais uma vez na série, o protagonista tem um background riquíssimo. Niko Bellic é apresentado como um imigrante do Leste Europeu, marcado por traumas de guerra e em busca de uma vida melhor. Seguindo os lançamentos mais recentes, sua identidade molda toda a experiência.
Niko não é apenas um criminoso funcional. Ele questiona suas escolhas, demonstra arrependimento e entra em conflito constante entre sobrevivência e moralidade. A narrativa se constrói ao redor desse contraste, e o jogador passa a entender o mundo em torno dele.
Com GTA IV, Grand Theft Auto prova que a franquia não se resume somente à liberdade caótica. A apresentação cinematográfica, o gameplay mais contido e um protagonista profundamente humano mostram que a série estava pronta para ser mais do que um jogo sobre roubar carros — estava pronta para contar histórias relevantes dentro de mundos abertos complexos.
GTA V: um jogo que atravessa gerações
Chegou no PS3 em 2013, foi relançado no PS4 pouco tempo depois e já tem versão nativa para PS5. Não, não estamos falando de The Last of Us, mas sim do fenômeno geracional com mais de 200 milhões de vendas ao redor do mundo: Grand Theft Auto V.
Mais uma vez, o grau do que significa liberdade no gameplay subiu. Agora com três protagonistas e uma história capaz de conectá-los, Trevor, Michael e Franklin roubaram a cena.

Menos pudor, mais gráficos lindos, mais realismo e o nível de detalhes que todos esperam de um triple A. A receita foi boa a ponto de fazer o game durar 13 anos, mas aí veio um ingrediente surpresa, ausente nos demais títulos da franquia: um modo online.

Um pouco confuso às vezes, o GTA Online começou como um playground. Aos poucos, foram surgindo eventos sazonais. Em seguida, parecia ser pouco para o que os fãs da IP queriam, e eles mesmos criaram um próprio universo lá dentro.
Corridas com pistas feitas pela comunidade, onde os veículos bugavam e sobrevoavam a cidade, já não eram o suficiente. A socialização era uma dor, e para os modders, virou brecha. Surge o GTA RP.

No GTA RP, um mod para PC do GTA Online, você é, finalmente, o que você quiser. Gangues, sistema de empregos, pagamentos, dublagem, crianças, casamentos, vivência e crimes.
Diversos criadores de conteúdo fizeram de GTA V um fenômeno. Em todas as redes onde se podia fazer live, uma história era criada. A Rockstar entendeu o recado.
Você deve ter pensado: "Então derrubaram os mods ?". Não. Eles compraram os modders. O GTA RP vive e segue cativando muitos players, por isso, não há pressa para o próximo passo.
GTA VI: O próximo passo
19 de novembro de 2026. A Rockstar segue batendo firme nessa tecla. Após adiamentos, invasões aos estúdios, vazamentos de gameplay e muitos rumores, GTA VI, o próximo passo, tem uma data.
Muitas dúvidas cercam o projeto. Afinal, o produto que ficou famoso por oferecer liberdade chega em uma era em que a conscientização do certo e do errado gera "barreiras". A essência do "faça o que quiser" seguirá viva? Vale lembrar de alguns países onde Bully e a própria série GTA foram impedidos de serem vendidos. Como será em 2026?

Muitas empresas de jogos talvez ficassem com as mãos atadas. Mas a Rockstar, não. Dois protagonistas no estilo Jack & Sally tomam as rédeas do jogo: Jason e Lucia.
Jason chama atenção por ser um garanhão. Lucia, encarcerada em parte dos trailers, também tem seu charme. Juntos, eles transmitem a aura de um casal, aparecem como um casal, mas será que fecharão o game como um casal?

E sobre a liberdade: o que nos espera no gameplay? Onde a Rockstar vai inovar agora? Depois de um ultra-realismo em Red Dead Redemption 2, o próximo passo já surge como uma cobrança. Precisa ser melhor em tudo.
Em meio ao hype e todo o lucro gerado, qual é a sua expectativa para o lançamento de GTA VI?











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