Os jogos de terror, principalmente ao longo dessas últimas décadas, têm evoluído, se modificado e criado novos nichos e subgêneros com uma velocidade quase assustadora. Toda semana, dezenas de jogos indie novos são lançados e podem satisfazer a sede dos fãs de terror de diversas formas, mas os indies tendem a, obviamente, ser mais curtos e simples do que um jogo AAA, e às vezes essa sede vai além de uma experiência mais reduzida.Mas, ao mesmo tempo, os grandes jogos de terror AAA normalmente trazem em si um "problema" para quem gosta daquele survival horror raiz, que era muito mais proeminente uma década atrás do que é hoje: é muito comum eles penderem mais para a ação do que de fato para o survival. Ao favorecer batalhas épicas com clímax incríveis, armas mirabolantes, mecânicas diferenciadas etc., aquele medo puro de estar completamente à mercê de um inimigo tão forte que você não tem o que fazer além de fugir e se esconder, ou, se for lutar, de ser algo muito difícil, árduo, foi se perdendo um pouco. Isto é, até outubro de 2014, quando Alien: Isolation foi lançado.O que é Survival Horror e o impacto do primeiro jogoSurvival Horror é como se define aquele tipo de jogo no qual você tem um objetivo simples: sobreviver. O termo surgiu em 1996, com o lançamento de um clássico absoluto que todos conhecemos: o Resident Evil original. Apesar de ter forte influência de outros games como Alone in the Dark, a frase "survival horror" foi usada pelo marketing da Capcom para divulgar seu novo jogo e, quase sem querer, acabou se tornando um subgênero muito presente no terror até hoje.Vamos deixar uma coisa clara: survival horror não é sobre não ter armas e recursos, e sim sobre tê-los de forma limitada, o que te obriga a poupar munição, organizar bem seu inventário, priorizar alguns itens sobre outros etc. O gênero vai desde o icônico Resident Evil 7: Biohazard, em que você luta com os inimigos e os derrota um por um em batalhas grandiosas, até títulos como Outlast, em que você não tem absolutamente nenhum jeito de lutar e precisa apenas correr, se esconder e cuidar dos escassos itens de cura ou de algum outro recurso (no caso de Outlast, as baterias da câmera). {UI da câmera do Outlast, com o nível de bateria que vai diminuindo quanto mais o jogador usa a câmera, e pode ser recarregada}Porém, é muito fácil para um jogo "exagerar na mão" e se tornar, pelo menos em partes, um action horror, em que o foco é muito maior na ação do que em sobreviver. A própria saga Resident Evil seguiu esse caminho antes do seu "retorno às origens" no Biohazard; Resident Evil 4 e 5 já são muito mais action que survival, e podemos citar outros exemplos como Dead Space e a saga F.E.A.R., e até mesmo The Last of Us.Especialmente na época, em 2014, a imensa maioria dos jogos AAA de terror estava indo para esse lado mais action, o grande revival do survival horror na indústria não aconteceria até alguns anos depois, e os fãs de games em que você só precisa se esconder e fugir estavam encantados com Outlast, lançado um ano antes, e sedentos por mais experiências semelhantes. E então, a SEGA lançou um jogo que atraiu os olhares de milhares de fãs do terror, e dos fãs de longa data de uma das franquias mais emblemáticas do cinema: Alien: Isolation, desenvolvido pela Creative Assembly.O game te coloca na pele de Amanda Ripley, uma engenheira trabalhando para a Weyland-Yutani e, sim, filha da icônica Ellen Ripley (conhecer a história básica dos filmes do Alien é legal para entender melhor a história do game, já que eles não seguram sua mão e destrincham tudo bonitinho na narrativa). Ela vai até a estação espacial Sevastopol, em busca de registros da nave em que estava sua mãe (a Nostromo, do primeiro filme), para descobrir o que aconteceu com ela.Nossa protagonista, que é tão durona quanto a mãe!E, claro, a estrela do jogo se encontra na estação: o Xenomorfo, o alien dos filmes, com seu design apavorante e instintos de caça ainda mais apavorantes. Você até consegue, em um ponto bem mais avançado do game, um lança-chamas que afasta o Xenomorfo assustando-o com fogo, mas não existe nenhuma forma efetiva de você lutar contra ele. Se você ouvir aquele som característico que parece o chocalho de uma cascavel ou o suave ranger da mandíbula dele, e não tiver um ótimo esconderijo bem na sua frente… não tem como descrever de outra forma além de "já era".O game também explora, em uma seção levemente mais focada em ação, os facehuggers, a forma "larval" dos Xenomorfos que gruda na cara das pessoas em um dos ataques de alienígena mais aterrorizantes da ficção, e tem inimigos "comuns", os Working Joes, humanoides sintéticos que tripulam a estação espacial e que se tornam hostis com a Amanda e podem ser combatidos e derrotados normalmente. Mas o grande foco do jogo é se esconder, cuidar dos seus escassos recursos de cura e crafting e fugir da ameaça aterrorizante do Xenomorfo, tendo como único auxílio o Motion Tracker, um aparelho que acusa movimento próximo à personagem e te ajuda a manter um olho no paradeiro do Alien.A atmosfera construída em Alien: Isolation é surreal. Cada elemento do ambiente sci-fi, a estação espacial abandonada e cheia de corpos das vítimas do Xenomorfo e dos Working Joes, cada asset colocado ali, a música, o silêncio, efeitos sonoros incríveis, a iluminação — tudo contribui para criar uma tensão quase inigualável, que te deixa apavorado até de colocar o dedo do pé para fora da mesa ou do armário em que você está se escondendo há 15 minutos. A única coisa que proporciona um segundo de alívio é olhar para o Motion Tracker e vê-lo vazio, não acusando nenhuma presença perto de você. Mas o que acontece quando não temos mais nem esse pequeno raio de esperança?Alien: Isolation 2 na BGSEm junho desse ano, na Summer Game Fest, os fãs do terror tiveram uma surpresa muito bem-vinda: um anúncio da sequência do jogo que abalou as estruturas do survival horror uma década antes, prometendo a mesma atmosfera aterrorizante, mas com melhorias gráficas, gameplay aprimorado e o retorno do Xenomorfo! O trailer nos mostra que vamos poder explorar áreas externas dessa vez, e a equipe da Um Gamer teve a oportunidade de jogar a demo na Brasil Game Show 26, no estande da SEGA, além de conhecer pessoalmente duas das pessoas responsáveis pela gema, que é essa série de games entre tantos outros títulos de terror incríveis lançados nos últimos anos: Al Hope, diretor criativo do projeto, e Archie Whitehead, artista principal de ambientes.Os DevsO encontro foi breve, mas nossa equipe chegou cedo e eu fui o primeiro da fila a falar com os dois devs. Ambos foram extremamente simpáticos, principalmente o Archie, que parecia estar muito animado para conhecer os fãs do game, enquanto o Al Hope estava mais contido, mas ainda muito simpático e gentil, e chega a ser difícil descrever a honra que é conhecer pessoas tão essenciais na criação de um game que eu aguardo tão ansiosamente. A franquia Alien sempre foi uma das minhas preferidas, como grande fã de mídias de terror, e muito do que o primeiro jogo conseguiu atingir tão perfeitamente foi graças à direção e à visão do Al Hope.Já o Archie Whitehead trabalha na Creative Assembly desde 2020, segundo seu LinkedIn, e suas redes sociais e portfólio são testemunho de por que ele atualmente lidera uma parte da criação de Alien: Isolation 2. Ele é um artista 3D incrível, e, juntando isso com a qualidade que o primeiro game já teve quando se trata de modelos, assets e construção de ambientes, podemos com certeza esperar um trabalho fantástico de sua parte, ainda mais considerando como ele demonstra um carinho muito grande pelo jogo.Nos breves minutos de conversa entre os autógrafos e fotos do meet&greet organizado pela BGS, perguntei ao Al Hope uma coisa cuja resposta eu já sabia, mas estava curioso para ouvir vindo de alguém que já dirigiu um jogo que, para mim, é uma obra-prima do survival horror: existe algum elemento que se sobrepõe aos outros em importância na hora de criar uma atmosfera de terror imersiva como a de Alien: Isolation? Pois, para o Al Hope, não. Precisa existir o balanço perfeito entre arte, música, ambientação, suspense, perigo e diversos outros elementos para que o jogador se sinta verdadeiramente ali, imerso naquele ambiente e apavorado como se fosse o personagem, e essa resposta só me deixa mais ansioso para me sentir assim de novo jogando Alien: Isolation 2.A DemoA demo que jogamos na BGS nos apresenta os primeiros minutos do novo game, que tem como premissa uma equipe de cientistas que encontra, em um planeta remoto, os destroços de uma nave misteriosa (que tudo indica ser a nave do primeiro jogo) e, ao explorá-la, encontra e liberta uma ameaça praticamente imbatível.É uma história bem ao estilo da franquia Alien, o que imediatamente transporta os fãs para um ambiente quase familiar, ainda que imensamente hostil. Nessa demo, controlamos Blake, membro da equipe de cientistas que encontra e explora a nave que aparenta ter caído no planeta.O ponto em que esse jogo brilha, até mesmo nessa breve demo, é, mais uma vez, a atmosfera. O contraste entre os espaços externos mais amplos e os corredores estreitos e semidestruídos da nave traz a sensação de não ter para onde correr de forma impecável, e a ameaça iminente do Xenomorfo, podendo surgir a qualquer momento, paira sobre o jogador e cria uma tensão gigante. Afinal de contas, é um jogo do Alien, da franquia do Alien. Sabemos que o Xenomorfo vai aparecer, mas, até isso acontecer, o simples ato de andar para frente dá medo mesmo no meio de um evento gigante e bem iluminado, cercado de outras pessoas.E, quando ele aparece, o terror vai para outro nível. O game já prometia desde seu anúncio uma melhoria considerável na IA do Xenomorfo, que agora vai reagir não só às ações do jogador, mas também ser influenciado pelo ambiente e por coisas como vento ou tempestades, e essa melhoria já é sentida nessa demo, com bem menos padrões em seu comportamento e uma imprevisibilidade muito maior. Os recursos permanecem escassos, e a exploração necessária para encontrá-los é carregada de tensão a cada segundo.O áudio também tem um papel mais importante ainda, principalmente porque nessa demo não temos o Motion Tracker, então não temos como saber se o Xenomorfo pode estar perto ou se aproximando, e muitas vezes um barulho de metal distante pode ser sua única dica de que é hora de entrar naquele armário do canto ou virar jantar de Alien. A falta dessa simples ferramenta se torna algo imenso; ela virou quase um item de conforto no primeiro game, e ter que ficar atento aos menores sons te coloca em uma imersão absurda, mesmo durante os poucos minutos da demo.No lançamento do jogo completo, é provável que encontremos um Motion Tracker ou tenhamos acesso a alguma tecnologia similar, afinal uma das imagens de promoção mostra um Motion Tracker com a tela rachada, jogado no chão e acusando uma presença próxima; mas a ausência dele na demo cria toda uma nova camada de terror.ConclusãoAlien: Isolation 2 promete uma evolução tecnicamente melhorada, mas com a mesma essência do primeiro jogo, e tudo aponta para que o resultado seja exatamente esse! Uma gameplay divertida, imersiva, um mundo com ambientes completamente novos para explorar, uma história digna de um dos filmes do Ridley Scott, uma atmosfera absolutamente aterrorizante e o nosso querido Xenomorfo te perseguindo: os ingredientes perfeitos para uma sequência que vai conquistar o público tanto quanto, ou mais do que, o primeiro, e deixar os fãs de survival horror felizes por mais bom tempo.Obrigado pela leitura e até a próxima!
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