Não há palavra mais apropriada para definir o último mês no meio gamer que não seja "desolador". No início de Julho, a PlayStation tomou sua medida mais tecnofeudalista ao anunciar o fim da mídia física a partir de 2028. Foi confrontado com resistência, precisou manter suas mídias silenciosas por semanas, mas a comoção logo se transformou em apatia.Apatia, no entanto, não é conformismo. Enquanto o conformismo é proveniente de pressão social e adequação a um status quo, apatia é um estado de exaustão emocional e mental que leva à indiferença ou aceitação, apesar da insatisfação. É comum que a apatia venha, por exemplo, do abuso: quando exposto repetidamente a uma situação, o indivíduo eventualmente a aceita como uma realidade, mesmo quando essa lhe é incômoda; se roubavam seu lanche todos os dias na escola, você se rendia e acabava por entregar o lanche voluntáriamente.Para quem acompanha tecnologia, os últimos anos têm sido uma espécie de exposição de abusos que terminam por nos deixar apáticos. O fim da mídia física até parece um problema menor quando o comparamos com, por exemplo, o fato de que nossa percepção cognitiva é moldada e manipulada por algoritmos há mais de uma década ou que as vagas de trabalho de uma parcela da sociedade estão ameaçadas pelo advento da inteligência artificial, a qual não pedimos e ainda não vivenciamos coletivamente os seus benefícios. E assim como no caso da PlayStation, nosso direito de "ter" está sendo substituído por "pagar pela autorização de usufruir" dos serviços de alguns poucos detentores de plataformas.Conforme ficamos mais conscientes dos riscos dos avanços desregulados da tecnologia e má-regulamentação do ambiente digital, mais tendemos a concordar no desejo de não viver em um Cyberpunk 2077, ou seja lá qual tecno-fantasia se passa na cabeça de Marc Andreessen ou Peter Thiel. Mas estamos sendo empurrados para ela sem a capacidade de oferecer resistência. A União Europeia, por exemplo, confirmou que não pode impedir a Sony ou qualquer outra empresa de encerrar a produção de discos físicos.A apatia nasce neste momento. Quando existem forças mais poderosas, as quais você não tem como combater ou resistir. Resta-lhe ser levado pela maré, e mesmo sob contestações em postagens, elas lhe oferecem um desabafo confortante ao invés de soluções práticas. A comunidade gamer se encontra neste limiar agora. Até ela aceitar a nova realidade, todos os lançamentos deixarão uma lembrança amarga do problema maior.Entre julho de 2026 e janeiro de 2028, qualquer jogo lançado para o PlayStation existirá no contexto que a Sony estabeleceu por lucro e sem pedir autorização ou oferecer contrapontos e benefícios ao consumidor. Cada lançamento relevante neste período será, de alguma maneira, enquadrado no debate maior sobre o que significa possuir um jogo em comparação a ter acesso ao produto pago, e para onde a indústria está caminhando quando decide que o produto físico deixou de ser necessário ou se tornou produto de luxo.O anúncio da Sony estabeleceu um luto antecipado na comunidade, e ele vai inevitavelmente acompanhar toda discussão sobre games nos próximos meses ou anos. Todo game, independente do gênero ou da quantidade de hype, soará como uma despedida silenciosa se tiver discos, ou um mau presságio do futuro se sair sem essa opção.Ironicamente, Grand Theft Auto VI seria um título com capital cultural suficiente para existir fora do debate. Porém, a discussão do fim da mídia física começou pouco antes da Sony, através da notícia de que GTA VI também não seria lançado em discos. Mais de uma década de especulações e teorias culminaram em um trailer com anúncio de data de lançamento que movimentou a imprensa no mundo inteiro.O trailer foi ofuscado no dia seguinte pelo debate sobre o "código de download" dentro da caixa. O lançamento mais aguardado da década deixou de ser mencionado nos noticiários e canais de games pelo hype, para dar espaço à discussão sobre o que aquela "caixa com código" representava: a normalização de um modelo de negócios onde o consumidor paga pelo acesso.Se nem o jogo com o maior holofote da indústria dos games consegue existir sem ser usado como exemplo ou campo de batalha do debate sobre mídia física, nenhum jogo vai conseguir. GTA VI, o melhor pioneiro possível deste "novo velho modelo" de códigos, será utilizado como evidência para todos os lados do argumento, seja antes de 19 de novembro, ou após.A escala do título e seu histórico na indústria sempre servirão para amplificar o debate. Tome, por exemplo, Final Fantasy VII. Em 2027, o terceiro e último jogo do remake episódico, FFVII Revelation, pode chegar com mídia física, apesar de o diretor do jogo, Naoki Hamaguchi, não dar certeza desta possibilidade. Em entrevista durante o Final Fantasy XIV FanFest em 29 de julho, Hamaguchi chegou a brincar que os fãs vão "acabar com ele" se Final Fantasy VII Revelation sair sem edição física.Levou pouco tempo até a comunidade utilizá-lo como um dos exemplos melancólicos do fim de uma era: FFVII chegou com três discos em 1997 para o PlayStation One, era a estreia da franquia fora da Nintendo e se tornou um dos títulos mais citados quando debatem RPGs; Final Fantasy VII Revelation fechará o ciclo de vida dos discos físicos para a franquia.Diversos outros títulos e eventos passarão, de alguma maneira, por este assunto. É inevitável imaginar que alguém no The Game Awards tocará neste debate. Se a Sony anunciar o PlayStation 6 em 2027 e ele não tiver um hardware para mídias físicas, as redes serão inundadas por este assunto, e independentemente do quanto um título novo possa gerar hype, a ausência ou inclusão dos discos será parte do debate.Absolutamente tudo sobre games será "maculado" com este assunto durante, pelo menos, dezoito meses. Não significa que títulos não serão avaliados sob os mesmos critérios que sempre definiram se um jogo vale o tempo do jogador. Mina the Hollower, Pragmata e Crimson Desert foram algumas das melhores novidades do semestre, e isso não muda por causa da Sony.Outros jogos futuros também serão avaliados pelas suas qualidades e defeitos, mas com um gosto um pouco mais amargo no fundo: o contexto histórico em que eles existem mudou e há uma diferença entre lançar um jogo durante um ápice cultural, ou lançá-lo no encerramento de uma era. Todo disco físico existirá com a consciência de que será um dos últimos, e toda caixa de uma obra lançada após 2028 trará a lembrança do que ela representava em outra época.Imagem: Dereck StricklandJá é consenso entre especialistas e grandes portais de que essa decisão não será revertida, pois é difícil de contestar quando 78% das vendas de games já são digitais, e o lucro por venda digital dobra em relação ao produto físico ao eliminar custos de fabricação e distribuição. Nenhum artigo convencerá a Sony a recalcular, e a pressão política em torno do tema ainda é escassa ou admitidamente incapaz de intervir. Em 2028, a mídia física provavelmente deixará de existir no PlayStation. E a apatia estará lá novamente.
— Comments 0
, Reactions 1
Be the first to comment