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A Evolução dos Cheat Codes nos Games

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Se você cresceu jogando videogame, principalmente entre os anos 80 e 2000, existe uma boa chance de que tenha usado algum cheat code sem nem pensar duas vezes. Conheça as origens e a evolução desses códigos

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Cheat codes. Aqueles códigos secretos que davam vidas infinitas, liberavam fases ou simplesmente mexiam com o jogo de formas que você não conseguiria, se não fosse um dos desenvolvedores, eram parte da vida de qualquer jogador da era 8 e 16 bits. Era comum anotar em papel, decorar sequências de botões e chegar na escola e ficar falando sobre como você conseguiu descobrir a coisa mais impressionante que havia para ser descoberta em um jogo.

O Konami Code em Detona Ralph (fonte: Pixar)
O Konami Code em Detona Ralph (fonte: Pixar)

Esses códigos surgiram como ferramentas internas de desenvolvimento, criadas para ajudar programadores a testar seus próprios jogos sem limitações de número de vidas ou podendo colocar inimigos ou obstáculos no meio da fase e testar se ficava bom ou não alguma coisa ali.

E, ao longo do tempo, esses códigos vazaram para os jogadores e se tornaram uma das partes mais legais e marcantes da história dos videogames. Vamos conhecer como os cheat codes começaram e quando eles desapareceram da vida dos jogadores e, se você ficar com dúvidas, deixe um comentário.

Os Primeiros Truques Antes dos Consoles

Antes mesmo dos consoles se tornarem populares, já existiam formas de manipular jogos para obter vantagens. Nos anos 70, quando os videogames ainda estavam engatinhando, alguns títulos já apresentavam comportamentos curiosos que podiam ser explorados pelos jogadores.

Um dos exemplos mais antigos vem de Computer Space, um arcade de 1971. Segurando dois botões enquanto você ligava o computador, era possível começar o jogo com a pontuação máxima, o que acabava com o desafio do jogo logo no início. Isso foi um dos primeiros cheats conhecidos e, embora não se saiba o motivo da sua criação e nem por que alguém usaria.

Nos computadores domésticos dos anos 80, a situação era ainda mais interessante. Jogos rodavam em sistemas que permitiam acesso direto à memória, e jogadores mais curiosos descobriram que podiam alterar valores manualmente. Com comandos específicos, era possível modificar energia, vidas e outros parâmetros do jogo. Era algo técnico, quase experimental, mas que mostrava que o controle do jogo podia ir além do que os desenvolvedores imaginavam.

Ao mesmo tempo, alguns jogos começaram a brincar com a ideia de segredos escondidos. Em Colossal Cave Adventure, palavras específicas digitadas pelo jogador podiam ativar efeitos inesperados, como teletransporte. Não havia instruções claras sobre isso. Esses segredos eram descobertos por tentativa e erro ou compartilhados entre jogadores, criando uma espécie de “folclore” em torno dos jogos.

Nascimento dos Cheats

Com a chegada dos consoles de 8 e 16 bits, os cheat codes deixaram de ser apenas ferramentas internas e passaram a fazer parte da experiência dos jogadores. Foi nesse período que eles ganharam forma, identidade e, principalmente, popularidade.

Um dos casos mais emblemáticos é o famoso Código Konami. Criado durante o desenvolvimento de Gradius, ele servia para facilitar os testes, permitindo que o desenvolvedor jogasse com vantagens além das do game normal. A sequência de botões era simples, mas extremamente eficaz. O curioso é que o código continuou ali na versão final do jogo e acabou sendo descoberto pelos jogadores.

Quando apareceu em Contra, o impacto foi ainda maior. O jogo era conhecido por sua dificuldade elevada, e o código que concedia 30 vidas extras rapidamente se tornou indispensável. Quem jogou nessa época provavelmente lembra de repetir a sequência quase automaticamente antes de começar uma partida.

Esse tipo de código ajudou a transformar os jogos em algo mais dinâmico. Não era apenas sobre vencer desafios, mas também sobre descobrir formas alternativas de jogar. Alguns códigos facilitavam, outros apenas adicionavam elementos curiosos, mas todos contribuíam para aumentar a longevidade dos jogos.

Revistas e Hot Lines

Antes da popularização da internet, descobrir cheat codes era quase como uma “quest secundária” dos jogos. Você não tinha como procurar a informação na web, então precisava descobrir os códigos ou conhecer alguém que descobriu um e trocar essas informações.

O Jornal SEGA Club, depois SEGA Mania, vinha com dicas e o número da Hot Line, além de informações sobre lançamentos e catálogo de compras.
O Jornal SEGA Club, depois SEGA Mania, vinha com dicas e o número da Hot Line, além de informações sobre lançamentos e catálogo de compras.

Nesse mundo antes da internet, as revistas especializadas desempenhavam um papel fundamental nesse processo. Publicações como a Nintendo Power tinham acesso direto aos desenvolvedores e, além de macetes para terminar o jogo, a revista publicava alguns códigos.

No Brasil, locadoras de videogame eram pontos de encontro onde jogadores conversavam sobre dicas, sobre os jogos e também sobre os cheats. Essa troca de conhecimento ajudava a criar uma sensação de comunidade. Os cheats não eram apenas ferramentas, mas também histórias compartilhadas entre jogadores.

Os anos 90 também tinham outras formas de se descobrir truques e dicas: os telefones. As Hot Lines eram serviços telefônicos que você podia ligar e pedir uma dica, pedir um conselho de como vencer um level ou algum segredo escondido. Tanto a Nintendo quanto a SEGA, através da Tec Toy, tinham seus serviços de Hot Line em que você conversava com os especialistas e podia perguntar sobre como passar uma fase, encontrar um item escondido ou um cheat code. Saber esse número de telefone era uma arma secreta de alguns jogadores.

O Game Genie

Com o tempo, surgiram dispositivos que levaram a ideia de cheats a um novo nível. Em vez de depender de códigos inseridos manualmente, foram lançados acessórios que modificavam o funcionamento do jogo em tempo real.

O Game Genie é um dos exemplos mais conhecidos. Ele era um acessório que ficava entre o cartucho e o console, que permitia que você incluísse códigos (um livrinho com os códigos vinha junto do acessório) e isso possibilitava mudanças significativas, como aumentar o número de vidas ou alterar mecânicas inteiras.

Game Genie - "O Poder nas suas Mãos
Game Genie - "O Poder nas suas Mãos"

Outros do mesmo estilo que também foram lançados eram o GameShark e Action Replay, que ampliaram ainda mais essas possibilidades. Eles permitiam não apenas ativar cheats pré-definidos, mas também criar novos, explorando o funcionamento interno dos jogos.

Essas ferramentas davam aos jogadores um nível de controle que antes era exclusivo dos desenvolvedores. Era como ter acesso ao desenvolvimento do jogo. Mas, é claro, ele tinha seus riscos de quebrar o game e travá-lo no meio da jogatina, então era uma “faca de dois gumes” que os jogadores escolhiam usar ou não.

Cheats Icônicos dos Anos 90

À medida que os jogos se tornavam mais complexos, os cheat codes também evoluíam. Eles deixaram de ser apenas ferramentas simples e passaram a influenciar diretamente a forma como os jogos eram experimentados.

Em Mortal Kombat, por exemplo, existe o “Código de Honra”. Que foi uma das grandes armas da SEGA contra a Nintendo na “Guerra dos Consoles”. Enquanto a versão de Super Nintendo tinha um “suor” e Fatalitys que não faziam sentido, a versão de Mega Drive e Master System tinha um código que restaurava o sangue e os Fatalitys como deveriam ser.

O Código de Sangue do Mega Drive em Mortal Kombat 1
O Código de Sangue do Mega Drive em Mortal Kombat 1

No PC, Doom apresentou uma abordagem diferente. Em vez de sequências de botões, os jogadores digitavam códigos diretamente durante o jogo. Comandos como IDDQD e IDCLIP se tornaram extremamente populares, permitindo invencibilidade e liberdade total de movimentação pelos cenários.

Esses códigos não apenas facilitavam o jogo, mas também incentivavam a exploração. Jogadores podiam experimentar os mapas de maneiras que não eram possíveis durante o gameplay normal.

Cheats como Parte do jogo

No final dos anos 90, alguns jogos começaram a integrar cheats de forma mais orgânica. Em vez de depender de códigos secretos, eles passaram a desbloquear modificações através do desempenho do jogador.

GoldenEye 007, no Nintendo 64, é um ótimo exemplo disso. Cheats eram liberados ao completar missões dentro de certos limites de tempo. Isso transformava os códigos em recompensas por habilidade, em vez de atalhos. Esse tipo de abordagem antecipava sistemas modernos de conquistas e troféus, onde o jogador é recompensado por seus feitos dentro do jogo.

Os Jogos de Mundo Aberto

Nos anos 2000, os cheat codes continuaram presentes, especialmente em jogos de mundo aberto. Títulos como Grand Theft Auto: San Andreas ofereciam uma enorme variedade de códigos que alteravam completamente a experiência.

Era possível voar, reduzir a presença policial ou modificar habilidades do personagem. Esses cheats não eram apenas ferramentas, mas formas de experimentar o jogo de maneira diferente, muitas vezes mais divertida do que o modo tradicional.

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Outro jogo em que os cheat codes eram partes integradas da jogatina era The Sims. Códigos como “Motherlode” ou “Money=99999” ou códigos para liberar os objetos de serem movidos livremente, fora da grade, atravessar objetos, aumentar ou diminuir de tamanho entre outros se tornaram essenciais para que os jogadores pudessem criar casas incríveis ou cumprissem desafios de gameplay.

O Fim dos Cheat Codes Tradicionais

Com a chegada da internet e a evolução dos jogos, os cheat codes começaram a perder espaço. Informações que antes eram raras passaram a ser facilmente acessíveis, e o elemento de descoberta foi diminuindo. Ao mesmo tempo, os jogos passaram a incorporar sistemas de progressão mais estruturados, como conquistas e níveis de dificuldade ajustáveis. Isso reduziu a necessidade de códigos externos.

Ainda assim, o conceito não desapareceu completamente.

No PC, ferramentas como Cheat Engine permitem modificar jogos de maneira semelhante aos antigos cheats, mantendo viva essa tradição. Mods habilitam o “console command” de alguns jogos, permitindo que você manipule através de códigos o jogo.

Não é o cheat code como conhecíamos. Não é mais apertar uma sequência de botões na tela inicial. Não é mais aquele código de incluir vidas ou habilitar o “God Mode”, mas eles cumprem basicamente o mesmo papel.

Mesmo com o declínio dos códigos tradicionais, o impacto cultural dos cheats permanece forte. O Código Konami, por exemplo, ultrapassou os limites dos jogos e apareceu em sites, aplicativos e até filmes. Esses códigos fazem parte da memória coletiva dos jogadores. Eles representam uma época em que descobrir um segredo era tão importante quanto terminar o jogo.

No fim das contas, os cheat codes sempre foram mais do que simples atalhos. Eles eram uma forma de explorar, experimentar e, acima de tudo, jogar o jogo. Não havia mal nenhum em se dar 99 vidas quando o desafio era frustrante. O importante era se divertir.