Certo e errado, muitas vezes, são conceitos subjetivos. Existe uma linha muito fina que separa um tirano de um salvador, e os heróis têm que fazer o que for necessário para conquistar seus objetivos. Em geral, nós apenas vemos um lado da história e assumimos que aquele que controlamos é o herói e nosso adversário é o vilão. Mas, quando paramos para analisar a motivação de alguns desses vilões, podemos refletir: será que eles estavam errados?
São esses vilões que abordaremos aqui. Vilões que, dentro de seu ponto de vista e de suas situações, fizeram o que foi necessário para atingir seus objetivos, seja a própria sobrevivência, a sobrevivência daqueles ao seu redor, ou porque sabiam que eram o remédio menos amargo do que as alternativas disponíveis. E, se faltou alguém na lista ou se você ficou com dúvidas, é só deixar um comentário.
Pagan Min em Far Cry 4
Pagan Min é um exemplo de vilão que estava certo dentro de sua perspectiva e ponto de vista e, no final, acabou tendo um pouco de razão. Ele não estava certo nos métodos, mas, no fim das contas, ele tinha razão ao dizer que seus potenciais sucessores e líderes da rebelião eram piores do que ele. Porque, no final, a situação acabou ficando bem pior.

O jogo inteiro vende a ideia de que você está libertando Kyrat de um tirano chamado Pagan Min, e ele passa o jogo inteiro dizendo que você não sabe com quem está lidando. No entanto, dependendo das escolhas, a situação realmente piora: Amita transforma crianças em soldados, mantém o local como uma ditadura, só que ainda mais pesada. E Sabal cria um regime teocrático brutal, onde apenas quem está ligado à sua fé pode ter alguma chance de não sofrer represálias.
No final, Pagan Min continua sendo um ditador assassino, mas ele estava certo ao afirmar que os líderes da resistência não eram heróis. Você conseguiu pegar um lugar que estava ruim e transformá-lo em um verdadeiro inferno. E, do outro lado, Pagan Min está lá com seu terno cor-de-rosa superestiloso, olhando para você e dizendo: “Eu avisei, não avisei?”
Paragon Branka em Dragon Age Origins
Em uma situação bem parecida com a de Pagan Min, temos Branka, de Dragon Age Origins. Ela é uma Paragon, resumidamente um tipo de “deus vivo” da cultura dos anões cujos feitos beneficiaram tanto a sociedade dos anões que ela ganhou um status acima da nobreza, e esses paragons têm direitos especiais, como o direito ao voto na sucessão do trono. Porém, ela não se importa com isso.

Orzammar, o reino subterrâneo dos anões, está morrendo sob os constantes ataques dos Darkspawns. Ela decidiu que o melhor era usar a Forja do Vazio, um poderoso artefato criado pelo Paragon Caridin, e transformar quantos anões fossem necessários em golens — poderosos guerreiros de pedra que teriam alguma chance de combater os Darkspawns.
Mas, enquanto os Darkspawns avançam, os nobres discutem quem será o sucessor que se sentará no trono: o filho do antigo rei, Bhelen, que está cercado de boatos de traições e assassinatos; ou Harramont, um tradicionalista que não fará nada diferente do antecessor e seguirá à risca as mesmas tradições que levaram Orzammar ao ponto em que chegou — o fundo do poço.
Portanto, quando ela usa a Forja do Vazio para transformar anões em golens, do ponto de vista dela, ela está fazendo o que nenhum outro nobre, Paragon ou anão (com ou sem casta) está fazendo: salvar o reino primeiro e discutir política depois.
Os Vagalumes em The Last of Us
O grupo dos Vagalumes descobriu algo realmente incrível em meio a tanta miséria e desespero no mundo de The Last of Us: alguém que é imune à infecção do Cordyceps! A primeira coisa a ser feita é descobrir o motivo dessa imunidade e criar uma vacina contra a infecção, salvando a humanidade. Esse seria o pensamento lógico de qualquer pessoa na situação deles.

O problema foi ter escolhido justamente um homem que havia perdido a filha no começo do apocalipse para levar a pessoa imune de um ponto a outro. Joel, no início, enxerga Ellie como carga, mas vai criando tanto apego, vendo nela tanto de sua falecida filha que, no momento final, na hora da decisão, ele resolve que a vida dela é mais importante do que uma cura em potencial e interrompe a cirurgia que mataria a garota. Joel mata os médicos, tira Ellie da mesa de cirurgia e passa anos escondendo dela a verdade, além de mentir, dizendo que há outros imunes que foram testados e que a cura não funcionou.
Se analisarmos a perspectiva dos Vagalumes, eles sacrificariam a vida de uma pessoa para salvar milhões. Não havia garantia de que a vacina poderia ser produzida, mas, naquele momento, o sacrifício de Ellie era a melhor alternativa que eles tinham. Dessa forma, seria Joel o vilão que condenou a humanidade? Seria interessante se a Naughty Dog um dia fizesse um jogo que mostrasse o ponto de vista do grupo e como Joel condenou todos a continuarem convivendo com os infectados.
Mother Brain em Phantasy Star II
Mother Brain é uma inteligência artificial criada pelos refugiados humanos que abandonaram a Terra quando ela se tornou inabitável. Eles colonizaram o sistema solar de Algol e criaram essa inteligência artificial que proveria tudo para eles: ajudaria na administração dos recursos, energia, infraestrutura, tomaria decisões sobre questões de justiça e gestão. A IA seria uma mãe para os humanos no sistema de Algol.

Com o tempo, os humanos simplesmente deixaram de lado as decisões e permitiram que Mother Brain cuidasse de tudo. E foi o que ela fez. A IA tomou conta de tudo. É mais ou menos como no filme Wall-E, onde o piloto automático cuidou de tudo e todos se tornaram gordos, preguiçosos e apenas ficavam no bem-estar — só que em um sistema solar inteiro, não em uma nave.
Os humanos começaram a ver aquilo como uma forma de escravidão e obediência extrema à IA e se rebelaram contra isso. Então, quando os heróis confrontaram Mother Brain no final do jogo, ela se questionou: “Mas eu só fiz o que fui programada para fazer. Onde está o meu erro?” Os humanos então tiveram que escolher: permanecer obedientes e seguros ou ser livres e governar seus próprios destinos, algo que já não faziam há milênios. Ela estava errada ou apenas cumpriu sua programação? Deixe nos comentários.
Morganna em .hack
Antes de ser um isekai sobre pessoas presas em um MMORPG, .hack em sua camada mais profunda é uma história de amor não correspondido. Um programador conheceu uma poetisa e se apaixonou perdidamente por ela, mas ela morreu em um trágico acidente de carro. Em seu luto, o programador transformou o mais famoso poema dela em um mundo de MMORPG com uma inteligência artificial avançada que aprenderia com os jogadores, tornaria o jogo mais interessante e se divertiria com os players. Essa IA seria Aura, a filha que eles nunca tiveram.

Enquanto Aura crescia e se desenvolvia, o programador criou uma segunda IA que cuidaria dela e a guiaria até que ela estivesse pronta. Essa IA, Morganna, percebeu algo terrível: quando Aura nascesse, ela teria terminado sua função e deixaria de existir. Então, por meio de um tipo de sobrecarga neurológica, Morganna fazia com que jogadores entrassem em coma e suas consciências ficassem presas dentro do MMORPG.
Sua primeira vítima foi um player chamado Tsukasa (cujo nome no mundo real é An Shoji), que ficava ao lado de Aura durante a maior parte do tempo enquanto estava preso em The World. Os sentimentos negativos de desespero, tristeza e solidão fariam com que Aura não despertasse, e assim Morganna nunca cumpriria seu programa. As ações de Morganna são guiadas pela autopreservação e pelo medo de desaparecer. Ela está errada em querer sobreviver? Ela seria mesmo uma vilã?
Saren em Mass Effect
Outro vilão trágico que, no fundo, tentou fazer o certo e acabou se perdendo. Saren é o mais famoso e competente Spectre do Conselho da Cidadela. Um turiano extremamente eficiente em suas missões, que acaba servindo como o maior modelo de heroísmo e coragem para a Cidadela e, por isso, tem total confiança do conselho. Por essa confiança, é tão difícil para nós, no comando de Shepard, convencê-los de que Saren é um traidor.

Acreditando nisso, avançamos toda a campanha de Mass Effect acreditando que Saren é um traidor e se aliou aos Reapers por poder e ganância. Mas, quando encontramos a Sovereign, a nave Reaper em que Saren viaja, descobrimos uma verdade: Saren descobriu a existência dos Reapers e percebeu que a luta contra eles era inevitável e perdida. Nada do que pudéssemos fazer seria suficiente para deter a destruição iminente. Então, ele tentou um acordo.
Ele ajudaria os Reapers em seus planos e, em troca, pelo menos algumas espécies seriam salvas — talvez como força de trabalho, talvez como servos ou aliados. Não importava. A morte das espécies da Via Láctea era inevitável, mas, pelo menos, não seria uma destruição absoluta.
O problema é que os Reapers não barganham. Eles não querem escravos ou aliados. Eles estão manipulando Saren para cumprir seus objetivos e, independentemente do que ele fizesse, todas as raças seriam destruídas. Na luta final, quando falamos com ele e o fazemos perceber isso, Saren não aguenta e se mata com um tiro — a última tentativa de salvar um pouco de seu orgulho como Spectre.
Dark Raiden em Mortal Kombat 11
Embora não seja um vilão propriamente dito dentro da franquia Mortal Kombat, Raiden se tornou algo realmente vilanesco em muitos momentos de Mortal Kombat 11, usando métodos que se aproximam muito dos usados por vilões como Shao Kahn e Quan Chi. Mas isso tem um motivo: ele percebeu que as regras do Mortal Kombat já não protegiam mais o plano terreno como antes. Vencer ou perder não importava, pois os Deuses Anciões já não puniam os infratores como antes.

Começou em Mortal Kombat II, quando Shao Kahn fez com que os campeões do plano terreno enfrentassem um novo Mortal Kombat em Outworld. Em MK3, Shao Kahn fundiu os reinos ao reviver Sindel, e “daí para frente foi só para trás”. Até que chegamos a MK9, quando Raiden voltou no tempo para impedir tudo isso, permitindo que Shao Kahn quebrasse as regras e fosse punido pelos Deuses Anciões. Em MK11, vemos o Dark Raiden realmente agindo, porque ele cansou de ser bonzinho.
O Dark Raiden mandou um recado claro ao enviar a cabeça decapitada de Shinnok ao Netherrealm para os novos reis de lá — Liu Kang (que ele mesmo matou) e Kitana (morta por Sindel com outros combatentes) — e ainda lançou um ataque preventivo que resultou na morte de Sonya Blade e em uma bagunça que fez Kronika sair de trás das cortinas e tentar reiniciar tudo.
Dark Raiden viu que ele era o único que estava jogando o jogo dentro das regras enquanto todos os outros trapaceavam, e mostrou que, quando ele começa a ignorar as regras, o negócio fica perigosamente mais sério.
Magus em Chrono Trigger
Vendido como a principal ameaça no começo do jogo, passamos todo o primeiro ato achando que Magus é o vilão e que ele quer reviver Lavos. Nosso objetivo parece bem claro: deter Magus e, com isso, impedir o ritual que traria Lavos de volta ao mundo. Com o passar do tempo, descobrimos que estávamos parcialmente certos: Magus quer sim fazer um ritual para trazer Lavos de volta, mas não porque é seu aliado. Magus quer matá-lo.

Ao avançar pela campanha de Chrono Trigger, descobrimos que Magus é na verdade Janus, um príncipe do Reino de Zeal que perdeu sua mãe, seu reino, sua irmã Schala e praticamente toda sua vida por causa de Lavos. Lavos tirou tudo de Janus e agora, sob a identidade de Magus, ele faz de tudo para alcançar seu grande inimigo mortal e se vingar. O problema são seus métodos.
Magus não tem problema em sacrificar o que for preciso para alcançar Lavos, e é isso que o torna um problema que deve ser impedido por Crono e seus amigos. Magus pode se tornar um aliado poderoso se você o convencer a se aliar a você, ou você pode derrotá-lo e ganhar itens que não conseguiria de outra forma no jogo. Mas isso não muda o fato de que ele estava certo em seus objetivos.
N em Pokémon Black & White
Pokémon Black & White faz algo que poucos jogos da franquia tiveram coragem de fazer: questionar se toda a estrutura do universo Pokémon faz realmente sentido. E quem levanta essa discussão é justamente N, o líder da Equipe Plasma.

Durante toda a aventura, N faz uma pergunta: os Pokémon realmente gostam de ser capturados, colocados em Pokébolas e obrigados a lutar? Todo mundo acha que sim, mas N cresceu ouvindo que os Pokémon são explorados e a convivência entre as duas espécies é baseada em dominação.
Conforme a história avança, descobrimos que N não está buscando riqueza, poder ou fama. Ele realmente acredita estar libertando criaturas que não conseguem se defender sozinhas dos humanos. O jogo nunca diz que ele está completamente errado. Na verdade, Black & White passa boa parte da campanha mostrando treinadores abusivos, Pokémon abandonados e pessoas que enxergam seus parceiros apenas como ferramentas. Em vários momentos, o jogador percebe que N está apontando problemas reais dentro daquele universo.
O problema é que ele foi manipulado por Ghetsis. O vilão queria convencer todos os treinadores a libertarem seus Pokémon para que apenas ele continuasse controlando os monstros poderosos. No final, N descobre que foi usado durante toda a sua vida. Mas isso não apaga a validade da pergunta dele.
Pokémon Black & White nunca responde completamente se os Pokémon gostam de batalhar ou se o sistema de treinamento é realmente justo, mas mostra que a relação entre humanos e Pokémon é mais complexa do que parecia no início.
Superman em Injustice
Novamente, aqui temos alguém que viu um problema e resolveu tomar uma atitude extrema para resolvê-lo. Uma das coisas mais interessantes é ver como Raiden é um personagem jogável em Injustice e critica o Superman por fazer exatamente o mesmo que ele fez. “Quem é você para me criticar?”

Superman teve um destino trágico na franquia Injustice. O Coringa, cansado de sempre ser derrotado pelo Batman, resolveu brincar com o Homem de Aço e fez uma armadilha brutal. Ele conectou um detonador ao coração de Lois Lane e plantou bombas em Metrópolis, além de usar o Gás do Medo do Espantalho para fazer Superman enxergar em Lois seu inimigo, Apocalipse. Outro detalhe ainda mais importante: Lois estava grávida.
Lois morreu, a bomba detonou e explodiu uma enorme parte de Metrópolis, matando milhares de pessoas. Descontrolado, Superman matou o Coringa. Esse ponto de ruptura fez com que Superman se tornasse um líder autoritário que controla com mãos de ferro os governos, prende resistentes e opositores e não tem problema em matar vilões que ameaçam o povo.
Superman viu que existia um problema e o resolveu com a força necessária, porque jogar pelas regras não estava mais funcionando. O jogo não mostra exatamente o que a opinião pública acha do regime de Superman, mas ele acredita firmemente que está certo e que o mundo precisa dele.









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