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PlayStation 6 por US$ 1,000 parece uma questão de "quando"

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O PlayStation 6 custar quatro dígitos de dólar se afasta de uma previsão catastrófica para virar uma realidade cada vez mais tangível.

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revised by Tabata Marques

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PlayStation 6 por US$ 1.000 parece inevitável

A partir de hoje (2 de abril), os preços do PlayStation 5 e PlayStation 5 Pro sobem pelo segundo ano consecutivo ao redor do mundo. Se utilizarmos o dólar como referência, os novos preços são $ 599.99 para a versão digital, $ 649.99 para a versão-base e $ 899.99 para o PlayStation 5 Pro.

Segundo a Sony, os aumentos se devem às pressões da economia global. Em tradução livre, os custos com hardware após o aumento de demanda ocasionado por data centers de inteligência artificiallink outside website se tornaram tão insustentáveis que a empresa está repassando parte dos custos ao consumidor final para manter sua margem de lucro.

O fenômeno resume-se à lógica de que os modelos de inteligência artificial requerem grandes data centers com processadores, memória RAM e chips especializados em quantidade nunca vista. Quanto mais os modelos de IA são utilizados e aprimorados, mais data centers são necessários; quanto mais data centers, mais componentes — a OpenAI sozinha adquiriu 40% da produção global de wafers DRAM dos próximos anos para o projeto Stargate, uma infraestrutura de supercomputadores para modelos de IA nos Estados Unidos com custo total de investimento de US$ 500 bilhões.

Imagem: Sony
Imagem: Sony

Componentes mais caros, console mais caro. Preços mais altos significam menos pessoas com poder de compra para adquirir um console novo, e ainda estamos falando do PlayStation 5, que saiu em novembro de 2020 com o preço de US$ 399.99 para a versão digital e US$ 499.99 no modelo base. O antigo padrão de um console ficar mais barato quando o modelo "Pro" sai e conforme a próxima geração se aproxima ficou no passado.

Afinal, nem sabemos quando um PlayStation 6 pode sair. De acordo com a Bloomberg, a Sony considera adiar a nova geração até 2028 ou 2029, visando contornar a crise de componentes. É uma aposta, mas se os preços não amortecerem no próximo ano, os recentes aumentos podem significar termos, em meio a uma economia em alta crise, o primeiro console a bater a casa dos quatro dígitos de dólar.

Na última semana, o insider KeplerL2 afirmou que as estimativas de custos de fabricação do PlayStation 6 são de US$ 760 — a Sony pode pagar o custo, vendê-lo inicialmente por um valor abaixo do custo e aceitar um prejuízo inicial na expectativa de redução de custos de produção no futuro, mas não significa necessariamente que o console chegará às prateleiras por US$ 800 ou menos em um período de grande instabilidade econômica e escassez de componentes. O PlayStation 5 Pro chegou ao mercado em 2024, subiu 200 dólares em um ano e meio e já está a US$ 100 da barreira de quatro dígitos. Algo entre US$ 900 e o temido US$ 1.000 parece mais palpável nas atuais circunstâncias.

Consoles mais caros, consumidores mais pobres

O AlixPartners conduziu uma pesquisa de expectativas de consumo no fim de 2024, com 15.434 participantes em nove países. Mais de 75% esperavam reduzir ou manter os gastos em 2025, com inflação persistente em itens essenciais resultando em menor gasto em categorias como entretenimento fora de casa.

Videogames fazem parte de uma parcela desses gastos discricionários, mas de todas as despesas que jogar possui, comprar um console é o mais caro e o mais afetado por crises. Além dos preços mais altos devido à demanda por componentes, há também instabilidades econômicas ocasionadas por tarifas e guerras com consequências diretas no custo de vida de um indivíduo.

Tais fatores afetam principalmente famílias com classes de renda mais baixa e já dificultavam a aquisição de novos consoles: segundo dados da Circana em janeiro deste ano, 53% dos novos consoles em lares foram comprados por famílias com renda anual de US$ 100 mil ou maior. Famílias com US$ 50 mil ou menos de renda anual compuseram apenas 19% das aquisições, uma redução considerável em comparação com 2022, quando eram 31%.

Se a maior parcela da população já está tendo problemas em consumir um console agora, como ficará se o principal sonho de consumo dos games na cultura mainstream — o novo PlayStation — chegar em padrões ainda menos acessíveis e com uma etiqueta de preços que grita "este produto não é mais para você"? A resposta, segundo Mat Piscatella do Circana, é que a audiência mais jovem e com salários mais baixos recorrerá aos mobile, free-to-play, PCs, ou o que for mais acessível neste período se os custos subirem demais.

Menos consoles vendidos já são parte da equação

Retração na venda de consoles pode ter consequências nos lucros da Sony. Faz sentido esperar mais alguns anos antes de lançar a próxima geração. Os planos da empresa, no entanto, parecem concentrar esforços em fazer com que menos consoles não signifiquem queda de receita.

No ano fiscal de 2024, a Sony registrou uma queda na venda de hardware da PlayStation, enquanto o lucro operacional cresceu no mesmo período. A empresa vendeu menos consoles, mas obteve receita através do avanço de serviços e monetização digital.

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A Sony também passou a enfatizar uma “base de receita durável e previsível”, sinalizando um foco crescente em aumentar a receita por usuário, ainda que sem abandonar a importância da base instalada como coração do ecossistema. Neste universo, um PlayStation 6 mais caro poderia ir de encontro com uma expectativa de menos consoles vendidos e práticas que aumentem o consumo da base compradora em outros produtos da marca, como acessórios e assinaturas.

“Menos pessoas consumindo mais” é uma tendência do mercado de hobbies nesta década. A inequidade de despesas é duas vezes maior do que no fim do século passado. Nos Estados Unidos, os 20% do topo da renda do país são responsáveis por quase 60% do gasto de consumo; eram 30% na década de 1990.

O modelo de consumo dos mais variados produtos de entretenimento se adaptou à nova realidade. Lego visa cativar o colecionador antes do consumidor de base. Magic: The Gathering e outros card games apostam no mercado de investimento e colecionáveis com variações especiais de cards a taxas de encontro baixíssimas nos pacotes. Para o mercado de videogames, segundo Piscatella, pode indicar mais “versões premium” de jogos e mais acessórios como artigos de luxo.

Serão tempos sombrios, mas não para sempre

Mais fábricas de hardware serão construídas e novas soluções tecnológicas eventualmente aparecerão para amortecer os danos que a ascensão do mercado de IA na indústria de videogames. Novas tecnologias — algumas utilizando upscaling com inteligência artificial, apesar da recepção negativa inicial das demonstrações do Nvidia DLSS 5 — estão sendo criadas e podem reduzir a dependência em força bruta de hardware e memória para entregar a mesma imagem. Existem também chips de maior densidade chegando ao mercado, como os módulos GDDR7 de 24Gb anunciados pela Micron e Samsung, que permitem mais capacidade com menos chips físicos.

Nenhuma dessas soluções trará amortecimento substancial nos próximos anos, provavelmente não a tempo do lançamento do PlayStation 6. As fábricas novas só devem entrar em operação em 2028, e quando entrarem, priorizarão memória de alta margem para IA, não para consoles. O upscaling por IA reduz a demanda computacional, mas não o custo dos chips que precisam ser fabricados e comprados, e as próprias tecnologias de upscaling consomem memória para rodar.

A expectativa otimista-realista para o PlayStation 6 é de que a Sony o lance em meio à crise, ou quando os efeitos dela ainda forem sentidos. A Sony o precificará de acordo e amortecerá os custos conforme — ou se — os custos de componentes ficarem mais baratos. Possivelmente a redução virá em um PS 6 Slim, que levará mais tempo para sair, mas com preços mais acessíveis. Repete-se o padrão do console, mas o teto de custo dele se torna o maior da história da PlayStation.

Seria, de certa maneira, como repetir o ciclo adotado com o PlayStation 3. Naquele caso, entretanto, o alívio de custo veio da evolução do hardware: o processador Cell teve seu custo reduzido ao longo do ciclo, com sucessivos avanços de fabricação e otimização industrial — ainda que dentro de uma cadeia compartilhada com parceiros como a IBM e a Toshiba. Desta vez, a redução dependerá do recuo da demanda de IA, mudanças de infraestrutura e outros fatores que fogem do controle da Sony.