Games

Opinión

A História da E3: A feira que Mudou o mundo dos Games

, 0Comment Regular Solid icon0Comment iconComment iconComment iconComment icon

Durante quase 30 anos, a E3 foi o principal palco da indústria dos videogames, reunindo anúncios históricos, consoles icônicos e momentos inesquecíveis. Da estreia em 1995 ao fim em 2023, a feira ajudou a moldar gerações de jogadores e transformou lançamentos em grandes eventos.

Writer image

revisado por Romeu

Edit Article

E3: o palco que definiu o mundo dos games

Houve um tempo em que o mês de junho era o centro de um terremoto que sacudia a indústria do entretenimento. Por quase três décadas, o Los Angeles Convention Center se transformou em uma catedral para os entusiastas da tecnologia. Entre luzes de neon, estandes monumentais e o som de trailers inéditos, durante mais de duas décadas — de 1995 até a edição digital em 2021 — a Electronic Entertainment Expo, ou E3, ditava as regras de como jogaríamos nos anos seguintes.

Image content of the Website

Em dezembro de 2023, veio o anúncio oficial do fim da feira, marcando o encerramento de uma era. Mas para entender o peso dessa perda, é preciso voltarmos no tempo, quando o evento nasceu de uma rebeldia e morreu vítima da própria evolução. Esta é a trajetória da E3 — desde sua origem, ascensão nos anos 1990 e 2000, até o seu fim.

O Nascimento

Image content of the Website

Antes da E3, os videogames eram tratados como "brinquedos eletrônicos", e grandes empresas como Nintendo e Sega se viam obrigadas a exibir seus lançamentos na Consumer Electronics Show (CES), muitas vezes em pavilhões distantes, entre fornos de micro-ondas e aspiradores de pó.

Cansada com a situação, a Interactive Digital Software Association (IDSA) — que depois se tornaria a Entertainment Software Association (ESA) — decidiu que os games mereciam um local próprio e criou a Electronic Entertainment Expo. Em maio de 1995, acontecia a primeira E3, que abriu suas portas em Los Angeles. O sucesso foi imediato, com 40 mil visitantes, e naquele mesmo ano um momento mudaria a história para sempre.

Image content of the Website

A Sega havia acabado de anunciar o lançamento surpresa do Sega Saturn por US$ 399. Minutos depois, Steve Race, executivo da Sony, subiu ao palco para o discurso mais curto e devastador da feira. Ele se aproximou do microfone e disse: "Two ninety-nine" (299 dólares). O PlayStation ganhava sua primeira batalha na guerra de consoles, e a E3 ganhava seu primeiro grande capítulo.

A era de ouro

Nos dez anos seguintes, a E3 se tornou o termômetro da indústria. Foi nesse período que a feira viu o nascimento de ícones. Em 1996, Super Mario 64 mostrou que o 3D era o futuro; em 2000, Hideo Kojima paralisou o pavilhão com o trailer de Metal Gear Solid 2, apresentando gráficos tão avançados para o PlayStation 2 que muitos duvidaram que fossem reais.

O evento era uma vitrine de marketing onde a rivalidade entre Sony, Nintendo e Microsoft (que entrou na disputa em 2001) tinha conferências que pareciam shows lotados. Em 2004, a Nintendo — em baixa com o GameCube — viveu um de seus momentos mais emocionantes com o anúncio de The Legend of Zelda: Twilight Princess. Shigeru Miyamoto subiu ao palco empunhando uma Master Sword e um escudo, levando a plateia à loucura — um momento imortalizado como uma das maiores reações da história da feira.

A crise de identidade

Em 2006, a feira havia se tornado grande demais: os custos dos estandes eram astronômicos, e o barulho era tão alto que os jornalistas mal conseguiam trabalhar. Em 2007 e 2008, a E3 foi transferida para Santa Monica em um formato fechado — e foi um desastre.

Sem o espetáculo, a feira perdeu sua alma e o brilho do evento. Em 2009, retornou ao LA Convention Center no formato tradicional, trazendo os Beatles (Paul McCartney e Ringo Starr) ao palco para promover The Beatles: Rock Band. A E3 parecia ter recuperado seu caminho, mas as sementes de destruição já estavam plantadas.

O domínio do streaming

A década de 2010 trouxe a era da internet em alta velocidade e, com ela, os memes. Ninguém esquece a conferência bizarra da Konami em 2010, ou o nascimento do bordão "My body is ready" de Reggie. Mas o momento de maior impacto ocorreu em 2013, quando a Microsoft anunciou o Xbox One com restrições polêmicas a jogos usados e a necessidade de conexão constante com a internet. Naquela noite, a Sony deu um golpe de mestre com um vídeo curto e sarcástico, mostrando que, para "emprestar um jogo" no PS4, bastava entregá-lo na mão de um amigo. Aquele pequeno vídeo deu a vitória à Sony naquela E3, definindo as vendas de toda uma geração.

Em 2015, a feira viveu o que muitos chamam de "A Conferência dos Sonhos", com a Sony anunciando em uma única hora o remake de Final Fantasy VII, Shenmue III e The Last Guardian — três projetos que os fãs consideravam impossíveis de acontecer. O barulho foi ouvido em todo o mundo através dos streamings, que agora alcançavam milhões de pessoas na Twitch e no YouTube. Começava ali uma nova tendência que minaria as forças da E3 silenciosamente.

O início do fim

O sucesso das transmissões online se mostrou o "calcanhar de Aquiles" da E3. Em 2011, a Nintendo começou a trocar suas grandes conferências presenciais pelos Nintendo Directs, e as empresas notaram que podiam falar diretamente com seus fãs via streaming: por que gastar milhões em um estande físico? Em 2017, a E3 abriu suas portas para o público geral pela primeira vez, tentando se reinventar e se tornar uma "Comic Con dos games". Tudo indicava que a feira se tornaria um grande evento aberto a todos, mas em 2019, a Sony desferiu o golpe mais duro: decidiu simplesmente não participar. Em 24 anos de E3, o PlayStation não estaria lá.

Então veio 2020 e, com ele, a pandemia de COVID-19, que forçou o cancelamento do evento presencial. Geoff Keighley, um veterano da indústria que antes organizava o pré-show da E3, lançou o Summer Game Fest, um evento digital, mas o estrago já estava feito com a mudança de pensamento e comportamento das pessoas durante o lockdown. Todos preferiam estar em seus lares assistindo em vez de comparecer ao vivo, e esse foi o golpe final na E3.

Image content of the Website

Em 2021, o evento tentou retornar com uma versão totalmente digital, mas foi considerado sem impacto; e em 2022, o silêncio. Após tentativas frustradas de parcerias com a ReedPop (organizadora da PAX), grandes editoras como Ubisoft, Microsoft e Nintendo confirmaram que não estariam presentes no evento. A feira já não tinha mais razão de existir, ficando apenas as lembranças dos bons tempos e do som ensurdecedor da plateia com o anúncio de um novo jogo.

O legado de uma gigante

Em dezembro de 2023, Stanley Pierre-Louis, CEO da ESA, declarou oficialmente: "Sabemos que toda a indústria, jogadores e criadores têm muita paixão pela E3. Compartilhamos essa paixão. Sabemos que é difícil dizer adeus a um evento tão amado, mas é a coisa certa a fazer diante das novas oportunidades que nossa indústria tem para alcançar fãs e parceiros".

A E3 acabou não porque as pessoas deixaram de amar videogames, mas porque o mundo mudou. O que antes era um rito de passagem anual transformou-se em um fluxo constante de informações nas redes sociais. Os trailers "surpresa" agora vazam nas redes sociais dias antes, os desenvolvedores conversam diretamente com os jogadores e os anúncios acontecem em qualquer dia comum da semana.

Ainda assim, permanece aquela nostalgia do lugar onde Keanu Reeves subiu ao palco em 2019 para dizer a um fã que ele era "breathtaking", onde Gabe Newell apareceu na conferência da Sony para anunciar Portal 2, e o anúncio de God of War que deixou o lugar tomado pela paixão dos fãs — uma intensidade que podíamos sentir mesmo por meio de uma transmissão.

Hoje, temos o Summer Game Fest e o The Game Awards, mas nenhum deles possui o brilho e o caos glorioso de Los Angeles em junho. A E3 era o coração de uma cultura que saiu dos porões para dominar o mundo. E, embora as luzes do Los Angeles Convention Center tenham se apagado para sempre, as memórias de cada anúncio seguido de gritos viverão para sempre na nossa memória. A E3 infelizmente acabou... mas o jogo continua.

E você, qual memória nostálgica tem de alguma conferência da E3? E o que sente mais falta dessa época? Deixe nos comentários.