10 Protagonistas de RPG Ofuscados
Todo RPG precisa de um herói. Alguém para segurar a espada, carregar o destino do mundo nas costas e servir como a lente pela qual o jogador vivencia a história. Mas tem vezes em que essa lente é tão transparente que o jogador nem sequer nota que ela existe, ou percebe que tudo ao redor dele é mais fascinante do que quem está no centro da tela.
Protagonistas fracos nem sempre arruínam um jogo. Alguns dos RPGs mais memoráveis das últimas décadas sofrem desse mal e continuam sendo aclamados como experiências maravilhosas. Mas, nesses casos, percebe-se que os desenvolvedores investiram tanto tempo na construção de mundo, nos coadjuvantes ou nos vilões que o herói acaba ficando para trás — às vezes por acidente, às vezes por uma escolha de design que não funcionou.
Abaixo, apresentamos dez casos em que o protagonista é, de longe, um dos elementos menos interessantes do seu próprio jogo.
Vaan — Final Fantasy XII

Vaan é o caso clássico e mais reconhecido pelos fãs de RPG. Final Fantasy XII conta uma história de guerra e intrigas políticas que é quase um blend de Star Wars com Game of Thrones, e coloca no centro um órfão de rua de Rabanastre cujo maior conflito pessoal é querer ser um pirata do céu.
Ao redor dele, Ashe busca reclamar seu trono e decidir entre vingança e diplomacia; Basch é um cavaleiro caído em desgraça, traído pelo próprio irmão; Balthier tem mais carisma em uma cutscene do que Vaan acumula no jogo inteiro e, não por acaso, se autoproclama "o personagem principal" em diversos momentos.
Vaan termina não fazendo quase nada no enredo inteiro e funciona apenas como a lente pela qual o jogador acompanha os eventos de Final Fantasy XII sem envolvimento direto com a maioria da trama. Ele tem o papel de ser a testemunha da história sendo feita sob a perspectiva da base mais afetada pela guerra, mas, no que concerne à participação na história, Vaan praticamente não existe.
Kliff — Crimson Desert

Kliff tem tanto carisma quanto um poste de luz e a profundidade de uma poça d'água. Ele morre, volta à vida sem explicação, tem a garganta cortada, mas continua falando, e segue adiante como se nada disso importasse porque, na prática, não importa. Crimson Desert tratou sua trama como um pretexto para empurrar o jogador pelo mundo, e Kliff é o veículo mais básico possível para essa função.
O mundo de Pywell, por outro lado, é muito bonito e cheio de segredos. Os biomas variam, a iluminação muda entre regiões e horários, e cada canto do mapa recompensa a curiosidade. Quando o jogo mais interessante que a Pearl Abyss criou tem um protagonista cuja personalidade se resume a "senso de dever", fica evidente onde a equipe de desenvolvimento priorizou seu orçamento — e onde não colocou.
2B — NieR: Automata

2B funciona como protagonista da primeira run de NieR: Automata. Ela é estilosa, o combate com ela é satisfatório, e ela passa a imagem de uma androide cumprindo ordens. Seu objetivo é matar robôs, então o jogador mata robôs. Quando precisa salvar seu companheiro, ela salva. O desenvolvimento da heroína durante a primeira run inteira se resume ao que não sabemos dela, em vez do que sabemos.
Após os créditos, quando NieR pede que você jogue novamente, você controla 9S — e ele é um personagem muito mais interessante. 9S é curioso: do primeiro minuto da segunda run, descobrimos que a capacidade de hackear também possibilita investigar dados e explorar emoções que os robôs sentem. 9S questiona e, por questionar, ele aprofunda a trama de maneiras em que um jogador desatento ficaria apenas com a suspeita se, por acaso, acompanhasse o enredo apenas sob a ótica da 2B.
Não é um descrédito à 2B. Ela tem um propósito e motivações importantes — inclusive na razão pela qual ela é tão contida —, mas NieR: Automata admite, pela própria estrutura do enredo, que a história real começa quando ela sai do foco.
V — Cyberpunk 2077

V é quem o jogador quiser que seja. Ele pode ser um mercenário ambicioso, um terrorista cheio de idealismos, ou algo no meio ou além dessas opções. Independentemente da versão escolhida pelo jogador, V divide a cabeça — literalmente — com Johnny Silverhand, e ele ofusca qualquer coisa que V queira ser.
Silverhand é arrogante, autodestrutivo, ideologicamente radical e tão carismático que transforma V — o corpo em que ele habita — em coadjuvante. Os melhores momentos de Cyberpunk 2077 pertencem a Johnny, das suas memórias ao seu passado. A performance de Keanu Reeves ajuda, mas o mérito também é do roteiro.
O Inquisidor — Dragon Age: Inquisition

Os dois protagonistas anteriores de Dragon Age tinham identidade: o Warden carregava a sentença de morte dos Grey Wardens e a urgência do Blight, e Hawke tinha uma tragédia familiar em Kirkwall que escalava com a política da cidade e acompanhava o jogador por uma década inteira de eventos. O Inquisitor é um indivíduo qualquer que tem uma marca verde na mão e ganhou um título.
É pouco. Vários dos outros personagens de Dragon Age: Inquisition têm arcos muito mais interessantes. Sem contar os personagens — incluindo os protagonistas dos títulos anteriores — que surgem no enredo principal com histórias muito mais interessantes.
Enquanto isso, o jogador permanece com um protagonista opaco. Alguém capaz de moldar o destino do mundo e fechar as Brechas por um poder mágico, mas que não tem absolutamente nada relevante para contar.
Byleth — Fire Emblem: Three Houses

Three Houses é considerado um dos melhores jogos da franquia Fire Emblem, e Byleth é considerado seu maior defeito. O jogo investe em fazer cada estudante e cada NPC de Garreg Mach parecer um personagem completo, com tramas que se desenrolam ao longo dos capítulos, e a escolha entre as três casas funciona como mecânica de jogo porque os três líderes — Edelgard, Dimitri e Claude — são personagens bem construídos e capazes de justificar decisões diferentes do jogador.
Byleth termina ofuscada por eles, mesmo sendo o personagem principal. Tem pouca personalidade, pouca customização e nenhuma reação notável aos eventos que acontecem ao redor. Comparado aos avatares/protagonistas anteriores da franquia, Byleth é um passo para trás em um jogo que deu vários passos para frente em todo o restante.
Jude Mathis — Tales of Xillia

Tales of Xillia oferece dois protagonistas jogáveis no início: Jude e Milla. A comunidade historicamente favorece Milla, e os motivos vão além da estética. Milla tem presença e um arco que carrega a trama do jogo, enquanto Jude é um estudante de medicina que se envolve nos eventos porque decide seguir Milla — e é tudo o que ele faz durante o jogo inteiro.
Jude é reativo aos eventos da trama do começo ao fim, enquanto Milla praticamente carrega a história. O próprio jogo parece ciente dessa dinâmica ao dar a opção de escolher o personagem no início, permitindo ao jogador priorizar a protagonista mais interessante e deixar o mais genérico — ou mais realista, como alguns sugerem — de lado.
Alphen — Tales of Arise

A franquia Tales tem um padrão com protagonistas idealistas e, em Arise, Alphen é a versão mais pasteurizada desse molde. Ele é corajoso, determinado e quer libertar os oprimidos. É tudo o que se espera de um herói de shonen — e é tudo o que ele oferece.
Diferente do caso de Jude, não é que Shionne seja a personagem que brilha porque Alphen é ofuscado — ela é bem escrita e suas motivações permanecem ambíguas por tempo suficiente para manter o público interessado —, mas que a construção de mundo em Tales of Arise não corresponde bem ao desenvolvimento de personagem de Alphen, ao ponto de até suas resoluções parecerem genéricas demais, como se ele tivesse sido concebido com uma checklist de tudo o que um herói de anime precisa ter.
Noctis — Final Fantasy XV

Noctis é um personagem interessante e seu arco é bom, mas ele demora tempo demais para acontecer.
O príncipe de Lucis precisa amadurecer diante de uma tragédia que lhe tomou seu reino e seu pai, mas, durante a maior parte de Final Fantasy XV, não o vemos desenvolver absolutamente nada em relação aos eventos — Noctis permanece um jovem pouco comunicativo e introspectivo durante toda a primeira metade do jogo, enquanto seus companheiros, Gladiolus, Ignis e Prompto, fazem o árduo trabalho de dar personalidade à jornada
Os três personagens têm muito mais personalidade e servem quase que como muleta para Noctis se mover: Gladiolus o confronta, Ignis o ensina e Prompto o humaniza. Sem contar Ardyn, um vilão tão bem construído que cada cena com ele faz o protagonista parecer um brinquedo em suas mãos. Juntos — e com Lunafreya, também ofuscada, mas por falta de tempo de tela —, os companheiros do protagonista e o vilão constroem o rei destemido que Noctis se torna no último ato do jogo. O problema é que ele só aparece no último ato.
Sora — Kingdom Hearts

Sora não perde para um personagem específico ou para o mundo — ou os mundos — de Kingdom Hearts; ele perde para o enredo do jogo que estrelou durante duas décadas. No primeiro Kingdom Hearts, Sora era um garoto em uma aventura por mundos da Disney, e a simplicidade do protagonista combinava com a leveza da trama.
Depois vieram vários jogos complementares, linhas temporais paralelas, reencarnações, réplicas, versões de dados e um enredo que exige caderno de anotações e um PowerPoint para ser acompanhado. Kingdom Hearts se tornou um dos títulos mais labirínticos dos videogames, e Sora continua sendo o mesmo garoto do primeiro jogo.
Em treze jogos, ele não amadureceu e não ganhou qualquer complexidade que não viesse de outros personagens em outros jogos, conectados indiretamente a ele. Enquanto Roxas ou Aqua conseguem carregar arcos ou jogos inteiros e fazem jus a um enredo que evoluiu e se expandiu ao ponto de exigir heróis mais complexos, Sora ficou parado no mesmo lugar, completamente opaco.











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