Fatality nos Bastidores
Você com certeza sabe que os primeiros jogos de Mortal Kombat foram feitos com atores reais. Mas existe um detalhe que talvez nunca tenha notado: você já reparou que os atores dos dois primeiros jogos não são os mesmos atores dos personagens de Mortal Kombat 3? E já se perguntou por que isso aconteceu?
Embora existam muitas fotos de atores em jogos concorrentes, a verdade é que o motivo é bem maior. Vamos descobrir segredos dos bastidores em uma história que envolve dinheiro e disputas autorais de Mortal Kombat, porque a Midway foi processada por quem ela menos esperava.
O Nascimento de uma Lenda e a Sombra de Van Damme
Em 1992, a Midway lançou o jogo de luta que mudaria os rumos da história: Mortal Kombat. Foi um sucesso estrondoso nos fliperamas de todo o mundo e, com o sucesso nos arcades, era natural que a próxima parada seriam os consoles domésticos, onde o jogo também explodiu em vendas.
Mas a origem do projeto é bem diferente do que conhecemos. A primeira ideia era fazer um jogo de luta entre ninjas, mas a Midway descartou isso de imediato, pois estavam obcecados por um ator que era o fenômeno de artes marciais da época: Jean-Claude Van Damme. Ele já tinha se firmado como um astro de ação e lutas marciais em filmes como O Grande Dragão Branco (1988), Kickboxer - O Desafio do Dragão (1989), Leão Branco - O Lutador Sem Lei (1990) e Soldado Universal (1992), e a equipe da Midway queria digitalizá-lo para criar um jogo de luta com ele.

As negociações com Van Damme não avançaram, pois o ator já estava comprometido em outro contrato, mas mesmo sem Van Damme, a Midway decidiu seguir com o jogo de luta, mantendo a inspiração no ator. O primeiro personagem criado foi Johnny Cage e, se você reparar bem, as iniciais JC são as mesmas de Jean-Claude.
Lembra daquele golpe nas partes baixas de Johnny Cage? Ele foi tirado diretamente de uma cena do filme O Grande Dragão Branco. Mas o que a Midway ainda não sabia é que Johnny Cage também daria um golpe baixo na empresa em um processo judicial sem precedentes na indústria dos games.
A Tecnologia Motion Picture e a Ascensão de Daniel Pesina
Na época, Street Fighter 2 era o sucesso do momento, mas Mortal Kombat trazia algo revolucionário: a tecnologia de Motion Picture. A ideia era que tudo no jogo fosse o mais real possível, então colocaram pessoas de verdade no game. Eles filmavam atores reais executando movimentos e golpes coreografados, digitalizavam essas imagens, transformavam em pixels e inseriam no jogo. Os atores contratados eram artistas marciais de elite e, entre eles, um nome se destacava: Daniel Pesina.

Pesina é um mestre de artes marciais americano e, nos dois primeiros jogos, interpretou Sub-Zero, Scorpion, Smoke, Noob Saibot, Reptile e Johnny Cage. Por ser mais experiente que o resto do elenco — que era composto por jovens lutadores — Pesina tinha certo respeito nos bastidores, algo que acabou subindo à cabeça.
Durante as gravações de Mortal Kombat 1 e 2 e nos preparativos para o 3, ele dava opiniões sobre a velocidade dos golpes e mecânica do jogo, agindo como se fosse o "coreógrafo oficial" sem que ninguém tivesse solicitado sua consultoria. Estava em todas as gravações, mesmo que não tivesse sido escalado, opinando em tudo, e isso começou a gerar mal-estar entre os outros atores que recorreram aos criadores, Ed Boon e John Tobias. Após uma conversa com Pesina, ele disse entender a situação e prometeu apenas fazer seu papel como ator, só que isso não aconteceu.
O Estopim do Conflito
O clima piorou de vez em 1994, quando Daniel Pesina procurou a Ultimate Game Magazine, uma das revistas mais influentes de games na época. Sem qualquer autorização da Midway — que era a dona do projeto — ele liderou uma entrevista coletiva com outros colegas de elenco. Na edição número 63 da revista, Pesina foi apresentado como o "líder não oficial" dos atores e afirmou ser o coreógrafo oficial de Mortal Kombat. E a história só piora: ele mostrou fotos confidenciais da produção, revelou segredos de bastidores da Midway e chegou a passar o número de contato da empresa para os fãs.

Na cabeça de Pessina, ele era uma peça indispensável no processo criativo do jogo, mas na realidade, ele era apenas um ator contratado (freelancer) para atuar. Pesina alegou que tinha inventado movimentos para cada personagem do jogo, falou de personagens bônus que nunca saíram do papel, tentando vender uma imagem de cocriador que a Midway não reconhecia.

Primeiro Round nos Tribunais: O Caso Liu Kang
Logo após esse evento, a Midway teve que lidar com Ho-Sung Pak, o ator que interpretava Liu Kang. Pak já tinha certa fama por ser o dublê de Rafael no filme As Tartarugas Ninja de 1991. Ele afirmou ao tribunal que os movimentos de Liu Kang eram de sua autoria - que só ele conseguia fazer aquilo - e a produtora estava lucrando com suas habilidades marciais.

A defesa da Midway apresentou as fitas originais de gravação e, embora Pak executasse chutes incríveis, ele quase sempre errava a aterrissagem, caindo sobre colchões colocados pela produção. A Midway provou que todos os movimentos do jogo foram corrigidos digitalmente e o que os jogadores viam não era um movimento fluido e único, mas uma correção técnica nos frames do jogo. No fim, para não ter repercussão negativa com o acontecido, a Midway fez um acordo financeiro com Pak e ele foi demitido da franquia, mas o pior ainda estava por vir.
Segundo Round nos Tribunais: O Processo Coletivo
Com o sucesso do port de Mortal Kombat nos consoles domésticos, Daniel Pesina convenceu os outros atores e liderou um processo coletivo contra a Midway, a Williams, a Acclaim, a Nintendo e a Sega. Ele alegava que o dinheiro das vendas de consoles não estava no contrato original, que apenas liberava o uso de imagem nos fliperamas e o uso nos consoles domésticos feria seus direitos e gerava lucro somente para as empresas.
Com o impasse, a justiça aplicou um teste que entrou para a história da indústria. Para verificar se a imagem do ator era realmente o que agregava valor ao jogo (o que os tornaria "coautores"), o tribunal realizou uma pesquisa com 306 jogadores de Mortal Kombat, onde mostravam a foto de Daniel Pesina ao lado do personagem Johnny Cage e perguntavam quem era ele. Apenas 18 pessoas fizeram alguma associação vaga e apenas uma única pessoa o reconheceu.
O tribunal concluiu que o público não comprava o jogo por causa do ator, mas sim por causa do personagem Johnny Cage. A sentença foi que qualquer pessoa sob aquela roupa poderia ser o Johnny Cage ou qualquer outro personagem.

A Lei de Direitos Autorais
Com base na Lei de Direitos Autorais de 1976 dos EUA, o tribunal decidiu que os jogos para consoles domésticos eram adaptações do original de fliperama e, como a Midway era detentora da propriedade intelectual, ela tinha o direito total de explorar sua obra como bem entendesse. Após a derrota judicial, a Midway demitiu todos os envolvidos no processo que foram substituídos em Mortal Kombat 3.
Daniel Pesina não aceitou a derrota facilmente, ele fez um comercial para BloodStorm vestido como Johnny Cage, tentando convencer os jogadores a migrarem para o novo jogo. Ele também se envolveu no projeto Tattoo Assassins, um jogo que copiava a tecnologia de Mortal Kombat, mas que nunca foi lançado.

Até hoje, Pesina mantém sua versão em entrevistas, jurando que a ideia de Mortal Kombat nasceu de uma conversa entre ele e John Tobias e que Ed Boon teria se "aproveitado" da ideia. O curioso é que ele nunca apresentou provas disso quando teve a chance nos tribunais. Existem gravações originais mostrando Ed Boon e John Tobias dando ordens técnicas desde o primeiro dia de filmagem ao ator caracterizado de Johnny Cage, o que desmente Pesina de que os criadores só apareceram no meio do projeto. Ele também afirma que a criação do icônico movimento do arpão de Scorpion ("Get Over Here!") era dele, mas vídeos de bastidores mostram Ed Boon ensinando ao ator como o movimento deveria ser executado.
Atualmente Pessina mantém o Master Pesina's Martial Arts Institute, fazendo treinamentos presenciais, seminários de coreografia de artes marciais, aparições em eventos de games e cultura pop.
O Ciclo se Fecha
A história de Mortal Kombat é uma lição sobre como a ganância e a falta de compreensão sobre direitos autorais podem custar carreiras inteiras. Daniel Pesina quase destruiu uma das maiores franquias de luta do mundo antes mesmo dela atingir seu auge.
Mas como o destino adora uma ironia, 30 anos depois, em Mortal Kombat 1 (o reboot de 2023), a Midway (agora sob o selo da NetherRealm) finalmente conseguiu fechar o acordo que começou tudo isso: Jean-Claude Van Damme finalmente entrou para o jogo como Johnny Cage e, de uma forma ou de outra, a justiça acabou sendo feita para os criadores.
E você conhecia essa história? Sabia dessa disputa épica nos tribunais? Deixe sua opinião nos comentários.











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