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Game Gear: o console da Sega que não venceu a guerra dos portáteis por um único erro

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Conheça a história do Game Gear, o portátil da Sega, lançado para desafiar o Game Boy da Nintendo. Um console da SEGA é marcado por sua ousadia nos anos 1990 e influenciou gerações de consoles e jogadores.

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revu par Romeu

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Game Gear e "A Guerra dos Portáteis"

No início dos anos 1990, o mundo dos videogames viveria uma década que nunca mais se repetiria na história da indústria. Enquanto a "Guerra dos Consoles" de mesa entre Super Nintendo e Mega Drive começava a ficar mais intensa, uma nova batalha se iniciava: agora na palma das mãos dos jogadores. Em 6 de outubro de 1990, a SEGA lançava no Japão o Game Gear, um videogame portátil que concorreria diretamente com o Game Boy da Nintendo, prometendo trazer cores ao mundo monocromático dos portáteis.

Essa é a história de um dos portáteis que poderia ter arrastado tudo que aparecesse em seu caminho, mas perdeu a batalha por um pequeno deslize de design e uma ambição que não cabia no bolso, perdendo a "guerra dos portáteis" para um console mais simples e sem cores.

O nascimento: O "Projeto Mercury"

O Game Gear era conhecido internamente pelo codinome Project Mercury, sendo uma resposta direta ao fenômeno Game Boy, lançado pela Nintendo em 1989. Hayao Nakayama, o CEO da SEGA na época, e Michael Katz, recém-nomeado presidente da SEGA of America, viam no portátil da Nintendo uma vulnerabilidade que poderiam explorar: a tela sem iluminação e sem cores. O Game Boy possuía um display de LCD em tons de verde e cinza, sem iluminação própria — e no mundo dos videogames, cores e iluminação faziam toda a diferença.

A SEGA decidiu que seu portátil seria tecnologicamente superior, e o departamento de desenvolvimento, liderado por Hideki Sato (criador do Mega Drive entre outros consoles da SEGA) projetou o Game Gear baseado na arquitetura do Master System. A ideia era brilhante: usar um hardware familiar; assim, a SEGA poderia portar facilmente toda a biblioteca do Master System para o novo portátil, garantindo um catálogo robusto desde o lançamento.

Hideki Sato
Hideki Sato

Especificações técnicas que desafiaram o tempo

Em abril de 1991, quando o Game Gear chegou às lojas americanas e europeias, ele era considerado uma maravilha tecnológica. Enquanto o Game Boy possuía uma tela de 2,6 polegadas e exibia apenas quatro tons de cinza, o Game Gear ostentava uma tela de 3,2 polegadas e uma paleta de 4.096 cores, capaz de exibir 32 simultaneamente.

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O hardware do console contava com um processador Zilog Z80 de 8 bits, rodando a 3,5 MHz — o mesmo do Master System. Possuía 8 KB de RAM e 16 KB de VRAM — bem superior ao Game Boy —, mas o que realmente o diferenciava além das cores era a iluminação. O Game Gear usava uma lâmpada fluorescente fria para iluminar a tela, e isso fazia diferença porque todos poderiam jogar no escuro, algo impossível para os donos de Game Boy, que para iluminar a tela precisavam de acessórios externos que deixavam o console desconfortável para jogos.

O Game Gear tinha um design horizontal inspirado no controle do Mega Drive, mostrando uma diferença entre o formato vertical do Game Boy — esse design buscava uma ergonomia para mãos de crianças, adolescentes e adultos. Com o passar dos anos, o design estético do Game Gear se mostrou assertivo, pois anos depois a Nintendo passaria ironicamente a adotar o formato vertical para seus portáteis.

A crise das baterias

A SEGA of America era famosa por sua postura de marketing agressiva e não poupou a Nintendo em suas campanhas publicitárias. Com o slogan Welcome to the Next Level, os comerciais de TV mostravam o Game Boy como um brinquedo para crianças, muitas vezes atacando diretamente o fato de o portátil não possuir cores na tela. Em um anúncio famoso, a SEGA afirma: "Se você fosse daltônico e tivesse um QI menor que 12, não se importaria com qual portátil teria".

Mas havia um problema que a empresa não pensou na hora de projetar o portátil: o tempo de jogo e a quantidade de pilhas. O poder tecnológico do Game Gear vinha com um alto custo: para alimentar a tela iluminada e colorida, o aparelho exigia seis pilhas AA. Essas seis pilhas duravam, em média, de duas a no máximo quatro horas de jogo; em comparação, o Game Boy, que precisava de apenas quatro pilhas, rodava os jogos por até 30 horas.

O custo de manter o Game Gear funcionando era caro, e muitos pais de adolescentes não queriam pagar esse preço. A SEGA tentou remediar esse problema com acessórios como o Battery Pack (uma bateria recarregável externa que era do tamanho de um tijolo) e uma fonte externa. Com esse problema, o Game Gear passou a carregar o apelido de "devorador de pilhas", que o perseguiu durante toda a sua vida como uma cicatriz negativa.

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A maior biblioteca portátil e a TV de bolso

Mesmo com o problema das pilhas, o console possuía uma grande biblioteca de jogos, com mais de 300 títulos lançados. O Game Gear tinha versões de alta qualidade de Sonic the Hedgehog, The GG Shinobi, Land of Illusion starring Mickey Mouse e Streets of Rage. Além disso, um dos maiores trunfos era o Master Gear Converter, um adaptador que permitia o Game Gear rodar jogos do Master System, e isso transformou instantaneamente o portátil da SEGA no console com a maior biblioteca disponível da época.

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O TV Tuner era outro ótimo acessório: após ser encaixado na entrada de cartucho, ele transformava o Game Gear em uma televisão portátil colorida, captando sinais analógicos via antena. Nos anos 90, possuir uma TV de bolso era o ápice do status e sofisticação tecnológica, e o Game Gear era o único videogame que oferecia essa funcionalidade de forma integrada.

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A queda para o Game Boy Pocket

Mesmo tendo vendido 10,62 milhões de unidades até ser descontinuado em 1997, o Game Gear nunca chegou perto do Game Boy, que vendeu mais de 118 milhões de unidades em suas várias versões.

A Nintendo soube contornar a superioridade tecnológica da SEGA com eficiência. O lançamento do Game Boy Pocket em 1996, que tinha uma tela mais nítida e exigia apenas duas pilhas AAA, foi o golpe final na guerra de consoles. A SEGA já estava concentrando sua atenção novamente nos consoles de mesa com a chegada do Sega Saturn e posteriormente do Dreamcast, deixando o Game Gear como um console do passado.

Existiam planos para um sucessor de 16 bits, apelidado de "Game Gear 2", que foram cancelados. Mas a SEGA não descartou de vez a ideia, lançando o Sega Nomad em 1995, que era um Mega Drive portátil. O Nomad era caro e exclusivo do mercado norte-americano, sofrendo do mesmo problema crônico de bateria do antigo colega de 8 bits.

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O renascimento com a Majesco

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O mais interessante na vida do Game Gear é que ela não acabou totalmente em 1995, tendo um epílogo curioso em 2000, quando a empresa Majesco Entertainment licenciou o hardware da SEGA e relançou o console como Majesco Game Gear. Esta nova versão possuía uma tela levemente melhor, o console era totalmente preto fosco (diferente do cinza escuro original) e foi vendido a um preço menor para o mercado de entrada, em uma tentativa de manter a chama dos 8 bits acesa no novo milênio. Para quem nunca teve um exemplar do Game Gear, essa era a oportunidade de poder comprar uma versão do console e viver sua nostalgia de infância.

acima o GG da Majesco e abaixo o GG original da SEGA
acima o GG da Majesco e abaixo o GG original da SEGA

Em 2020, para celebrar o 60º aniversário da SEGA, a empresa lançou o Game Gear Micro no Japão. O console tem o tamanho de um chaveiro, e a versão em miniatura podia ser adquirida em quatro cores diferentes, contando com quatro jogos pré-instalados. Foi uma bela homenagem a um aparelho que, apesar de sua falha (a bateria), foi amado por uma geração que viu naquele console a possibilidade de jogar seus games amados em qualquer lugar, a qualquer hora e em cores.

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O legado do portátil com cores

Hoje, o Game Gear é lembrado com carinho, nostalgia e um pouco de frustração. Para colecionadores, é um item essencial, e com a tecnologia atual as unidades originais podem ter manutenção técnica, melhorando seus componentes internos, tela IPS e finalmente colocando baterias que duram mais tempo para que os jogadores sintam a verdadeira nostalgia de como seria jogar o console por horas.

A SEGA não venceu a guerra contra a Nintendo, mas provou que havia um mercado grande para jogos portáteis de alta qualidade. Ele foi o precursor de dispositivos modernos como o Steam Deck — que prioriza a experiência visual e o poder de processamento, mesmo que isso signifique estar frequentemente perto de uma tomada.

O Game Gear mostrou a filosofia da SEGA nos anos 90: audácia, tecnologia à frente de seu tempo e o que era ser cool em uma época de rebeldia e jogadores famintos por novidades. Para quem viveu a época, o brilho daquela tela colorida é uma memória que nenhuma pilha descarregada pode apagar.